outubro 10, 2009

'De Profundis'

"(...) A minha relação com Deus tem sido sempre tumultuosa, cheia de desacordos e discussões: longos períodos em que me afasto, alturas em que me aproximo, amuos, quase insultos, discussões. Creio firmemente que, nos livros que escrevo, é Ele que guia a minha mão e não passo de um instrumento da Sua vontade. (...) É que não escrevo assim tão bem, trabalho sem plano e quase me limito a assistir ao que vai ficando no papel. (...) Não concordo com Jean Daniel, quando afirma que a única desculpa de Deus é não existir: há alturas em que o sinto tão fortemente em mim, alturas em que o sei tão longe. (...) Regressando ao princípio o meu pai teve um irmão que morreu pequenino, de meningite. Contou-me certa vez uma coisa que não esqueci nunca: era criança e tinha ido com o pai buscar os exames do irmão. Meningite tuberculosa, sentença de morte. Vieram para casa com o meu avô a guiar o automóvel, e o meu pai, sentado ao lado meu avô, via as lágrimas descerem pela cara impassível. Todos os dias, na esperança do filho se salvar, a minha avó ia a pé das portas de Benfica à capelinha da Senhora da Saúde, o que nessa época, e com o estado das ruas de Lisboa, exigia um esforço enorme. Depois dos meus avós morrerem as minhas tias encontraram toda a roupa do irmão guardada num armário: não foram capazes de se desfazer dela, não quiseram desfazer-se dela. Já nenhuma das pessoas de que falei se encontra neste mundo: os meus avós, o meu pai, as minhas tias, Sobro eu e, em certo sentido, enquanto cá estiver eles continuam. Para quem pensam que escreve o imbecil desamparado? Para as lágrimas de um homem pela agonia do filho, para uma mulher a caminhar diariamente quilómetros na esperança de que Deus o curasse. No jazigo dos meus avós lê-se
Ao nosso Antoninho
e, de vez em quando, vou lá às escondidas. Podem pensar na minha cretinice, não me rala, sinto-me bem junto deles. Os meus livros são isso: as lágrimas daquele homem, os passos daquela mulher. No caso de se aproximarem mais das páginas é o que realmente verão, em lugar das palavras impressas. E talvez vejam também o cretino a espreitar, comovido, pelas grades da porta."
António Lobo Antunes

'Talk Show'*

"Aos 20 anos, o amor é um transplante; aos 50 anos, o amor é uma confusão; aos 70 anos, se existir amor, é uma evidência, é bonomia e uma enorme tranquilidade."
Rui Horta, Actual, Expresso, 10.10.2009.
*"Talk Show é a primeira de três peças que o coreógrafo (Rui Horta) vai criar este ano para o Centro Cultural de Belém (de 15 a 18 de Outubro) enquanto artista associado daquele espaço."

outubro 03, 2009

Croácia 2008




"Sim, andámos a guardar a energia da noite, a receber a luz da escuridão das ruas, a recolher o halo amarelo das lâmpadas penduradas nas hastes. Debaixo delas, a sombra de cada um multiplicava-se por quatro e por várias, como se cada corpo fosse o núcleo de uma encruzilhada de sombras."
In: "O Jardim sem Limites", Lídia Jorge

outubro 02, 2009

Freezing

'If you had no name

If you had no history

If you have no books

If you had no family

If it were only you

Naked on the grass

Who would you be then?'

outubro 01, 2009

Black&White

A preto e branco,
a imagem. Parece que nasce com uma fisionomia definida, estanque. Ao olhar para o mundo desfeito em pequenos fragmentos de memória visual parece-me mais romântica, mais suportável a ideia de que tudo perece, finda. - Ao ver-te no círculo do teu tempo aceito melhor e o incêndio da saudade não reclama maior indemnização à história. A preto e branco parecemos todos conciliados mercê da protecção cromática, quem sabe. É como se o teu sorriso de há 40 anos não se importasse nada de continuar lá, em 1969, e vivesse à roda dentro da moldura, satisfeito, contido. E eu? Os meus olhos nadam neste mar nublado de testemunhos virados para dentro e dói menos saber-te desse lado da estória e do tempo. Quem diria que a objectiva tinha ponteiros, hein? De qualquer forma, é melhor assim. Há uma vitalidade apaziguada nestas imagens e percebo-te mais resistente ao toque da curiosidade na ponta dos dedos, posso-te respirar sem medo de roubar a cor das horas passadas. A preto e branco, o teu rosto fica maior, os pormenores de uma beleza focada, numa fisionomia definida. Estas fotos são o melhor tempero para a saudade e tu sabias disso. Por isso sorris.

Na minha Rolleiflex

As fotografias em cima da mesa. Abre-se o leque e estás lá. Dobras-te num rendilhado de lugares, horas, sons, cheiros para caberes inteira nesse movimento automático. Para lá e para cá. Repito a visita às imagens e descubro-me preso nos detalhes - há uma interpretação toda ela feita nessas linhas que expressam o que fomos, o que somos. Gosto delas, as fotos, a preto e branco mas nunca te disse o porquê. Gosto que as coisas durem. As fotografias assim tiradas oferecem-nos a fantasia da eternidade, de que um sorriso numa tarde de Verão pode fugir da noite como uma criança verdadeiramente livre foge do medo. A tua boca, os teus lábios sob o meu dedo apaixonado num talento imutável.
Quando os nomes se tornam tão pequenos para declarar as coisas que o nosso amor tocou. Quando o teu nome se liga irremediavelmente à minha vida que eu não sei partir para o mundo sem ser já cego para o facto de que houve um antes, de que há uma certa evidência de finitude e transitoriedade. Não é esse o lugar do Amor - ele continua a ondular em torno daquela velha árvore e a alimentar-se da seiva das palavras que são ponte entre duas linhas paralelas. Afinal, elas sempre se encontram sem plano. A máquina ao serviço da vida.
O amor torna a realidade ficção. Eu estou ali contigo, dentro desse casulo que é a fotografia que se abre para trás, sentimental afirmação da passagem do tempo."- Sabes, gosto das fotos a preto e branco." Gosto do sabor que o teu nome empresta à minha boca, à minha língua. A que te nomeia e que empurra os olhos para essa espiral de cor, intangível.
Clic. Há uma porta que separa dois mundos: aquele em que nos demoramos com as tonalidades de um céu reverberante e um outro que observa mais ou menos atento o que parece ser a nossa história. "- Sabes, os outros não usam a nossa linguagem, não são a nossa voz."
Quando me demoro com as imagens no colo ainda sou o mesmo daquele dia, o que quis guardar mais fundo todos os pormenores desse instantâneo que a máquina, rendida, encaixilha. Descubro-me nos detalhes desse sorriso imortal e sei o que fui para me tornar no que sou. Essa foto a preto e branco é um sinal e eu corro como uma criança no rasto do sonho, para dentro do horizonte. "- Sabes, a máquina fala de nós e não por nós, só nos lembra que há mais caminho cá dentro."
O que se encontra mais além, mais fundo. As cores da vida são o outro lado das imagens. Vamos lá.