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dezembro 16, 2009
dezembro 15, 2009
dezembro 11, 2009
'Irene ou o Contrato Social'
"O prazer de fazer mal porque faz doer, o simples prazer de dor num pontapé num gato, queimar um pau numa carne, cegar um pássaro nos dois olhos com um fósforo, porque sim. (...) Nunca gozara da dor pensada para causar gozo. Sendo objecto disso, desse mal, do mal, nunca usara disso a frio, excepto pela retracção. E o mal também pode ser isso. Deixar, sem saber deles, a crueldade, o mal acontecerem.
(...)
A vigília súbita, indício do pavor de estar a regressar a uma diversidade do ter sido, do vir a ser? A paisagística de um ter sido, de um devir? Esses estuários, ravinas, moradas, à vez reconhecidos e ignotos como os de um anjo? Sonham os cegos, como que vêem noutras partes?
Se o sonho é só a realização de um desejo, como os seus lugares são tenazes, são fugazes. Já estive aqui.
Esse aqui, ao esfumar-se, despedia cada objecto da vigília, do regresso ao mesmo mesmo.
(...)
A casa agora podia cair no mais medonho dos desleixos, no mais carregado dos silêncios com vozes. (...) Como saber se o desleixo é um sintoma mórbido, ou o sinal de uma vocação transida de despojamento?
(...)
Eu, que tanto fui lendo, por que não poetizo? Por que é que Irene não quer contar? Se até o queixume se modula. Em vez, ouve ofensas, lacera-se com o mal vivido, como se deixar-se deteriorar sem azedume fosse uma vingança. Não era. A única vingança é estar bem, dissera-lhe António Aurélio, diz na sua cabeça pendente no livro que não lê, que ela não tinha a coragem do quotidiano.
(...)
A memória só faz rasgões e lendas. Quando o explicado é da ordem do vento, só resta ao explicador o gozo de penetrar o ar. Coisa pouca. The air, the air is everywhere."
Livros
"Às vezes percorro a casa. É uma casa que se está bem sozinha. Sempre pensei. É quando tudo acabar e se calar. Com as coisas. E ela que sempre gostou tanto de coisas. São as que a castigam mais, as coisas. As de sorrir e as de recuar pelos golpes que relançam.
(...)
A vida dá muita volta. Não: dá apenas uma volta inteira, às vezes truncada. Pescada de rabo na boca, serpentina. Todas as coisas que lhe aconteceram, e eram poucas, eram repetições de remotas.
(...)
Ainda hoje tendo a pensar como Irene que a bruteza, com a sua carga de suspeição e inveja é toda a maldade que há, é a madre da maldade. (...) O que significa que também o abandono, ou o que é percebido como desamor, seja fonte do mal. Isto, que é banal, na tortuosidade do coração tenro não se sabe até se saber. E sabê-lo não é desconsegui-lo, nem desrepeti-lo de vez. Continuo a encolher-me de quem me escraviza e a ter raiva a quem me deixa só.
(...)
Orlando olha. Não o move o tédio, mas o princípio da indeterminação - não sabe para onde tem que ir e tem vergonha do princípio de indeterminação. On the road? Oh que não, Live fast die young? Inda menos."
In: Irene ou o Contrato Social, Maria Velho da Costa
dezembro 10, 2009
dezembro 09, 2009
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