Há 4 meses
agosto 03, 2010
agosto 02, 2010
Arte Poética*
o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso entendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se
silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as
conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se
chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender mulheres entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia,
esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os
lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso entendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se
silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as
conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se
chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender mulheres entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia,
esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os
lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
*José Luís Peixoto
julho 31, 2010
Eugénia e Silvina, Bessa-Luís.
"O diabo é um título das nossas esperanças. Quanto mais elas são ardentes, mais nelas arde o diabo, sem se consumir, como é próprio do seu espírito. Temei os que muito amam; eles são destinados a cometer os maiores erros. Muito ama o diabo; é esse o seu maior castigo e o que o carrega de cadeias para a eternidade.(...)
Um homem que enriquece perde a proporção da confiança em que a fortuna se gera. Assim, onde a classe média teve de facto o seu apogeu, na cidade do Porto, ela nunca se deixou arrastar pela obsessão da beleza que caracterizou o francês do século XVIII. Mais tarde caiu no coleccionismo, um abastardamento da aspiração ao belo. É de crer que o burguês adquiriu mobiliário de preço quando se explorou as suas ideias jacobinas e quis disfrutar não só da doçura de viver palaciana, em que um fauteuil perdia a alma de qualquer cortesão, como quis livrar-se da severa atitude do contabilista diante da sua pupitre com vista sobre o cais dos bacalhoeiros ou sobre a Rua dos Ingleses.
(...)
Uma grande família, no sentido de acumulação de bens e prestígio que isso acarreta, no sentido de duração e informações fixadas pela memória afectiva, é favorável a manias e outros tipos de alienação. A família é uma forma de sequestro; e o sequestro desenvolve sonhos eróticos e de glória, devoções extáticas e rasgos patrióticos em geral susceptíveis de discordar do sólido julgamento das pessoas.
(...)
Uma mulher que envelhece dá a impressão duma múmia enrolada nos seus preconceitos, como diz Toulet, poeta pouco discreto mas inteligente.
(...)
Todas as famílias são fertéis em tensões e desajustes; é assim que elas completam a sua permanência e que dão mostras de existir para uma coisa primordial e única que tanto pode ser a doença da casa como o objectivo duma casta. Sem conflitos a família não subsistia; os filhos tornavam-se selvagens e desproporcionados às relações que lhes compete instaurar no futuro e que são fruto das decepções da infância. Corrigir o mundo, melhorar a sociedade, quer dizer que se sofreu desarmonia a muitos níveis, entre mãe e criança, entre marido e mulher. (...) Francisco António sabia que a mãe não o amava; ele era apenas alvo de manipulação moral, como é, de resto, vulgar no âmbito familiar de estrato mais elevado. Daí que todo o seu período de crescimento se fizesse no sentido, não de modificar o mundo, mas de lhe causar alguns problemas.
(...)
A baronesa defendia-se de todo o género de possessão, dispondo de dinheiro suficiente para ostentar a virtude. Eu não sei se esta liberdade compensa da outra, que é não estar-se sujeito ao ouro; mas em todos os poderosos em bens materiais tem que haver essa ambição que é escapar às paixões com o exorcismo do dinheiro.
(...)
A limpeza faz a organização dos limitados em matéria de desejos do corpo e da alma. É por isso que em lugares santos se pode ler às vezes: A limpeza, Deus a amou, o que é inteiramente falso. Cristo não lavava muito as mãos para comer, nem receava tocar nos cadáveres. Alguma coisa há no que é imundo que beatifica o coração, permitindo-lhe resolver os seus impedimentos de amor e de aversão. O certo é que Eugénia só se vestiu bem duas vezes na vida: quando casou e quando morreu.
(...)
As boas ficções fazem as realidades mais saborosas, e, se não fosse o que os outros nos fazem errar sobre eles, a vida era menos interessante. A verdade, que eu saiba, não é virtude.
(...)
Este livro trata de vários estados de culpa, e por isso se despenha do alto da história humana como do alto duma montanha que convém escalar; para ter acesso à culpa é preciso ter-se acesso à sensibilidade da história; sem isso, o que resta é um terrível espaço em que tudo cabe e nada povoa.
(...)
João Mendes chegara ao ponto em que a ostentação não é mais provocação ou ajuste de contas; é só um diálogo como a morte porque se tomou o sucesso como certo.
(...)
As mestras eram mulheres decentes de trato comum e afável; inspiravam confiança ao desanimar o medo, que é o que mais corrompe o corpo vivo dos homens; e mais o salva, bem entendido. Era vulgar ver as mestras a cruzar os caminhos de Ranados, vestidas sem luto nem pobreza, preferindo cores claras e ouro amarelo, sempre sorrindo de leve, e nisto estava muito do seu poder. Onde há riso, há esperança.
(...)
Já Lena dizia, a Lena de Buchner, que há pessoas que são infelizes, simplesmente e irremediavelmente, porque o são. As Mestras conheciam, acima de tudo, essa disposição natural para a infelicidade. Digamos que a tinham percebido na casa da Malhada.
julho 26, 2010
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