dezembro 28, 2008

Ideal

Prometi-lhe tudo por cima da minha mentira.
Prometi que nada pode deter a verdade,
que nada pode enfraquecer a sintonia forte,
que nada pode erguer-se num espaço todo cheio de inteireza,
que nada pode calar o desejo de sermos mais do que ontem,
que nada pode deturpar as letras maiúsculas da religião sem templo,
que nada pode abater a imortalidade dos verticais,
que nada pode vender por menos aquilo que é plenitude solar,
que nada pode descolar o meu coração da tua biografia,
que nada pode calar a voz das evidências mais profundas,
que nada pode abafar o som da paixão que eu ouço quando te toco,
que nada pode afastar o lume da descoberta diária,
que nada pode abocanhar a carne transparente da cumplicidade,
que nada pode trocar as voltas a duas pessoas sem rota, errantes do nada,
que nada pode matar Deus se ele viver longe das pessoas, escondido debaixo da cama,
que nada pode afastar aqueles dias em que viajei nos teus sonhos e me fiz homem,
que nada pode tocar-te com maldade, és apática perante a inverdade geral,
que nada pode baixar o volume a duas pessoas sintonizadas na mesma estação,
que nada pode tornar o nosso diálogo um tópico de uma agenda semanal,
que nada pode criar barreiras a quem é maior do que portagens de inveja,
que nada pode limitar a força cósmica do nosso encontro, Céu às portas da vida.
Eu disse-lhe isto. Só não lhe disse que, à força de sonhar acordado, tenho preguiça de quebrar o ópio da fantasia.

My Choice

God In My Bed

Before last night my heart was grey
Like my country is today
Big kaleidoscope I see
A thousand people gaze at me
To break the ice
I start to sing
About a cell called everything
A cell so big a word like small
Is suitable to say it all is the fighting over?
I lost track
Like a wave it all comes back
Same kaleidoscope I see
Someone standing next to me
It's hard to do, it's hard to try
Hard to stop wondering why
Do I keep filing every case
When the answer's on your face
You can't see her but you do
Music is transparent too
So join me, sing with all your might
Hallelujah, praise tonight
Far away and long ago
Wintertime meant feeling low
Now every single star looks bright
God was in my bed last night
K's Choice

Stand up

Gosto do Inverno. Gosto que o "fog londrino" seja também quadro nesta cidade. Esta é a estação dos corajosos, daqueles que conseguem ver sem os olhos e para além destes. O frio, a neve, o vento, a chuva, o escuro fazem-nos afinar o melhor de nós, são a prova a puxar pela contradição, por direito. Com a chuva podemos chorar na rua, com o vento podemos bater com o pé, com o frio devemos reclamar duas mãos à volta do nosso volume quebradiço. A estação das hostilidades pode ser o palanque onde chamamos o outro para dar a cor que falta. O chocolate quente, a lareira, as manhãs ainda inundadas da noite que não se quer despedir já. Tudo isso é belo, uma beleza mais atípica e complicada mas possível. Basta crer e querer, tudo bem misturado com a colher.

Banalidades

Desilusão - perda de uma ilusão, daquilo que não era. Chegas à verdade, pelo pior caminho.
Desespero - não consegues esperar mais por aquilo que nunca virá, talvez. É uma parte de ti que se perde, o sonho feito falange ao vento. Estagnado.

Epicentro

'Poeta antes dos versos,
Inteiramente nu e descoberto.'
Miguel Torga
A voz do mundo fala-nos sempre. Há coisas que ele nos explica com paciência de ancião experimentado. Andamos alheados dessa ligação telúrica à terra, ao começo das eras. As verdades são essencialmente as mesmas, o que muda é a estética das épocas. Quando o adjectivo ultrapassa o substantivo, quando a consequência troca com a premissa causal perdemos o jogo. Devemos olhar para as coisas, tocá-las, conhecê-las e respeitá-las. Quando soubermos o "ser" podemos atribuir-lhe palavras que são aproximações defeituosas a esse referente. Mas com cuidado pois facilmente "o que é" fica oculto num véu de ignorância, as palavras são mais fáceis do que a sabedoria. A estética deveria ser uma derivação humilde do substantivo, da realidade que precisamos compreender. Hoje fizemos das palavras um negócio com uma ligeireza de quem apanhou o comboio há pouco. Conhecer alguma coisa requer disponibilidade de tempo e a Economia manda transformá-lo em comércio. Esquecemo-nos, no entanto, que viver é ser em busca de qualquer coisa e que a paciência é um desengano antecipado.

Fotografia

A contaminação da arte pela vida. A cristalização de cenários. Eu a dizer a plenos pulmões que a minha máquina vai parar o fim disto, aqui, imperecível. Os ficheiros que guardo ficam sobretudo abrigados da máquina do esquecimento que não sabe usar o "flash" e desfoca-nos a permanência. O aparelho tem sete "gigabytes" de reserva, caramba. Vou fazer das imagens que capturo um apêndice da minha memória, aquela que fica dentro do coração. Um dia, se o alzheimer da partilha me atacar, vírus comum, vou a correr bater à porta do cartão de memória digital e peço-lhe um espaço para mim. São sete, um é para mim. Assim, aos poucos, vou reconquistando a minha vida elencada em representações pessoais, em gritos de intemporal-idade. Fotografia, arma contra a decomposição do "eu". A minha máquina sou eu a esgrimir contra mim mesmo, mais à frente, distraído.
Alteração do tempo via aprofundamento.

O fast-food do Amor

"Os lugares do amor são ferrugentos, abrem portas desusadas, perras nas dobradiças. O amor chia nas empenas, incomoda os vizinhos, a vida organizada do corpo e do coração. Ele sabia que o amor doía ao príncípio, tinha medo de quando deixasse de doer e ficasse igual a outra coisa qualquer. Por isso, disse-lhe logo à partida que não acreditava naquele amor que aparece já pronto, arco-íris inesperado no fim de uma curva qualquer. «O amor constrói-se», dizia ele, eficiente artista plástico. «O encantamento vem da construção.» Ela tinha vontade de lhe dizer que é precisamente ao contrário, dessa insónia iluminada a que se chama inspiração é que nasce a ideia, e depois a construção. Se a construção for feita devagar, como o amor, gemendo lentamente nos gonzos do encantamento, pode ser que a obra dure."
"Carta a uma Amiga", Inês Pedrosa