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junho 22, 2016

Por este Mundo Acima.

"Estou em silêncio há tanto tempo, que não sei como quebrar a barreira entre mim e os outros.
(...)
Sim, a sedução é um jogo, não de verdade ou mentira, mas de ataque e defesa, por esta ordem. E de escândalo. Forçosamente é preciso escandalizar, puxar a realidade das coisas até um limite qualquer e, depois, ver como tudo corre, como é que se aguentam. 
(...)
Uma coisa é verdade, apesar das diferenças, éramos uns dos outros: Jaime na arte, Lourenço na política, escrevendo nos jornais e nos blogues, Sofia salvando o mundo. Um dos sentimentos que me animavam era a união entre os quatro. Pertencíamos uns aos outros. Sem qualquer dogma. Podíamos conversar sobre tudo e disparatar como as crianças. Até a maldade era desculpável. Possuíamos um registo que nos tornava diferentes. Gostava dessa ideia, de sermos o tudo e o nada uns dos outros, cruzando a vida de outras pessoas, mas regressando àquela base de afecto e confiança. Não falávamos sobre a nossa relação; sabíamos que era distinta e que, no meio por onde circulávamos, era tema de conversa. Não nos importávamos.
(...)
Eram dados invulgarmente exóticos para a maioria. Eu gostava de os coleccionar. Dava-me gozo saber coisas estranhas. Era esse tipo de homem: coleccionador de realidades que, em sociedade, me serviam para arrancar uma gargalhada, um apoio espontâneo, uma dose reforçada de superioridade intelectual.
(...)
Interrompia leituras para fazer releituras. Sou um grande adepto das segundas e terceiras leituras. Uma leitura aos vinte anos não é a mesma que aos trinta anos. A culpa é da personagem que é demasiado rica ou do leitor que se transfigura no tempo? A pergunta serviu de mote a tantos jantares. 
(...)
O azul estava mais perto da bondade. 
(...) 
Ser doente é ter um refúgio. 
(...)
A beleza, como a arte, era contemplativa. Perante uma mulher bonita, eu nunca esperei nada. Bastava-me olhar. Quando se dava o acaso de encontrar uma mulher assim e inteligente, rejubilava. A beleza, não sendo essencial, é um grande carinho que a natureza nos proporciona. Eu não era imune a esta comoção. 
(...)
É fundamental deixar de pensar. (...) Desde o início que há um pacto. As palavras podem ser bem-vindas, mas podem, com a mesma força, ser desnecessárias. Uma das características de Pedro, venho a perceber com o tempo, é a economia de gestos e palavras. Nunca mais do que o essencial para concretizar o seu próximo passo enquanto sobrevivente. 
(...)
Tudo é um mistério por ora e confesso-te que não sei nada. Nem de mim, nem dos outros. Se leres isto, um dia, Sofia, quero que saibas que te amo. Sempre te amei. Mais do que qualquer outra. mais do que a ninguém. Não te rias ao ler estas linhas, tem um pouco de compaixão. Controla os teus impulsos, sim? A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma. Sentes isso? Eu sinto. Quando te conheci, percebi-te de imediato. Acho que ficámos transparentes: um a ver a essência do outro. E depois segue-se a vida. 
(...)
Todos os truques que pregámos à vida viraram-se contra nós. Numa ironia qualquer que não entendo, eu - o mais fraco de todos vocês - fiquei no silêncio da casa dos meus pais a pensar nestas coisas. E escrevo, escrevo para não perder a razão. Ou talvez seja o contrário. (...) O escritor escreve para si, dizia eu aos meus autores. É uma mentira, sempre o soube. O escritor escreve como forma de exibicionismo. É único quando se agiganta no palco da escrita e vislumbra chegar à grande interrogação. Todos os bons romances são interrogações, não achas? Sobre o destino, sobre a fatalidade, a sorte e o azar. São a consciência do tempo no momento em que o tempo decorre, como uma veia a pulsar. Os romancistas são exactamente isso: medidores do tempo, das ideias, dos receios e expectativas do seu tempo. São contemporâneos, mesmo que alheados dos outros, porque não têm qualquer escudo protector, são comidos e mastigados pela vida e colocam tudo por escrito.
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Estou tão sozinha que oiço o meu corpo a envelhecer.
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Às vezes, a dor é tão grande, que o coração adormece. O coração deixa de bombear sangue, deixa de ser central no organismo, opta por se calar, passa a ser comandado pela dor. 
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Os livros têm música lá dentro, quanto mais os lemos mais entramos neles, colam-se à nossa pele e fazem da voz o que querem. (...) Os livros têm essa magia, fazem viver as coisas. O leitor percorre as mesma estradas que ele seguiu, encara realidades, redescobre um sentido de humanidade. 
(...)
Não era feliz, pois não?
Não, Pedro, nunca foi feliz. Ela dizia que não possuía essa vocação. Eu acredito que Sofia se limitou a deixar-se arrastar, com uma eficácia tremenda, para o lado mais triste da vida. "
in Por este Mundo Acima, Patrícia Reis. 

outubro 08, 2013

Onde a Noite se Acaba.

"Gostava de Londres, gostava da neblina. Fora duma e doutra, ter-se-ia sentido abandonado e nu como um primitivo, grotesco e risível. A neblina (assim, andando, reflectia o professor) esbate e amacia os contornos das coisas e dos seres, lubrifica os convívios, torna mais íntima e segura a personalidade, estabelece entre os homens uma translúcida barreira, uma distância, um véu, que os faz mais livres, mais senhores de si. É a condição indispensável da privacy. (...)
O homem londrino (meditava sempre o erudito, num crescendo de pensamento criador) vive numa atmosfera quase imaterial, propício ao culto fecundo do Eu, à meditação, à intimidade subjectiva. É-nos preciso ir ao clube, ao teatro, ao pub, ao restaurante, para reatar os laços do convívio material, para refazer todos os dias a noção vertiginosa da existência dos outros... Sim, precisamos do whist, do meeting, da igreja, do conforto, do golf, e até mesmo do whiskey, para sabermos que existimos socialmente, que fazemos parte dum mundo de indivíduos, de homens loiros, fleumáticos, precisos! Disso e do Times. Ah, o Times! (...)
«A civilização - costumava ele dizer aos seus alunos impassíveis - é a filha dilecta dos climas frios, e da Inglaterra em particular. As altas temperaturas e o ar seco enervam, ou excitam demasiado, fazem murchar as flores da criação e da cultura...»
Preparava havia bons vinte anos um minucioso ensaio sobre «As relações da temperatura e do grau higrométrico do ar com a marcha da Civilização» (ou coisa assim), mas faltavam-lhe, como é de ver, certos dados essenciais sobre as condições atmosféricas do Egipto sob a vigésima segunda dinastia, e outros momentos de importância histórica igualmente relativa, se os compararmos ao esplendor da era vitoriana."
In: Onde a Noite se Acaba, José Rodrigues Miguéis

julho 07, 2013

A Eternidade e o Desejo.

"O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor -  por isso permanecem quando as cores desmaiam.
(...)
A voz de um homem desbravando a fé nas palavras, fazendo de cada palavra uma catapulta, um forno, um berço, um gesto de reconstrução do mundo. Um céu partido ao meio no meio da tarde, um céu despenhado, pedra a pedra, da voz deste homem.
(...)
É verdade que o amor cega, paralisa, entorpece - mas apenas para tudo o que não é o amor. E tudo o que não é o amor é o mal do mundo. Não vale nada.
(...)
Vieira não precisava de nada nem de ninguém. No fundo, acho que lhe bastava a consciência de que tinha Deus dentro de si -  ou a eternidade, ou o conhecimento, como preferires.
(...)
Mas eu vejo tão pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebastião. A eternidade que somos conduzidos a aspirar é a da juventude - o lugar mais rápido, inseguro e variável da existência humana. O lugar do querer ser. Não vês o contra-senso que isto representa? A violência? A prisão?
(...)
- Utilizavam a arte como uma escada de acesso ao céu. O sucesso era então uma medida celeste. (...) Alguém acrescenta que a arte seria então a expressão máxima do amor, e nisto uma voz potente declara: «Definir-se e arder, isso é amar.»
(...)
(O calor: carícia dos mortos que muito - e quase sempre mal - amámos. Mortos que não soubemos ainda arrefecer, e ardem lentamente à superfície da nossa pele. Ardemos com eles, as palavras somem-se no fogo da pele, papel que torna espessa a tinta do coração. Não há amor imediato: o desejo transtorna a verdade, cai como chuva sobre o sangue, dissolvendo-lhe o tempo de onde vem e o espaço para onde vai. Não se consegue amar completamente senão na memória, Sebastião. As histórias que sonhámos para as pessoas amadas flutuam na neblina dos dias muito quentes, como mentiras leves tocadas pelo peso da verdade. Espuma do mar desfeita ao toque dos dedos. Não te canses a inventar-me no desejo do teu corpo, Sebastião, que o que em mim crês amar não é mais do que a memória das lágrimas, das tuas lágrimas, feitas de uma luz distinta das minhas.)
(...)
O prazer que se pode dar acalma as tempestades humanas; mas o prazer que se recebe e guarda nunca mais nos deixa serenar.
(...)
Peço que me injectem imagens em catadupa, as igrejas e ruas e estátuas em que os que têm o sentido da visão se distraem das visões que os dominam. Mas não posso escolher. A cegueira obriga-me a ver o que é meu.
(...)
A princípio faltavam-me as palavras. Nunca encontrava as palavras certas, por isso experimentava escrever poemas: acreditava que a arquitectura do verso geraria as palavras de que eu precisava, palavras com um mecanismo de relógio tão poderoso que estancasse o tempo. Essas palavras capazes de boiar sobre esse mar de morte que é o tempo, encontrei-as nos teus textos, Vieira - cordas de frases resistindo às intempéries e a si mesmas. Assim desisti dos rituais da poesia, fiz profissão de estudar as palavras do outros -  mas ralhavas-me sempre, António Vieira, puxavas-me as orelhas, não sei se pela minha desistência, se pela minha insistência nas palavras dos outros.
(...)
A coragem é o ponto de exclamação da vaidade, à qual a compaixão faz de vírgula  - os pecados de que desististe por amor a esse Deus que inventaste para não morrer, sublimaste-os a todos na vaidade. A luxúria, a cobiça, até a vontade de poder , a que hoje chamamos sucesso, tudo desfizeste e engoliste no caldeirão frugal da vaidade.
(...)
Digo-te que onde há seres humanos, há prisões.
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Querido amigo; perdoa se te usei como um mapa para encontrar o meu caminho - mas não são isso os amigos?
(...)
- Como se pode falar de alma sem falar de Deus? - pergunta-me Emanuel, enquanto me acaricia e eu canto ao seu ouvido aquela canção em que Caetano define a pele como a parte mais clara da alma. De tudo se pode falar sem falar de Deus. Como de tudo se pode falar enquanto se fala de Deus. Foi o que fez António Vieira.
(...)
Como tu, aprecio esse privilégio supremo do viajante que é o de participar da banalidade quotidiana sem lhe sentir o peso - porque não é sua.
(...)
Sebastião, o horrível desistiu de ser rival do belo, deixou de ser o antibelo. Ambos se fundem, ambos se fundiram sempre - mesmo quando não o queremos ver: são um só ser hermafrodita. Em todo o horrível há um grito pelo belo. No belo o único grito que se ouve - e não é grito, é um lamento em surdina - é pela morte: a morte que o apagará em definitivo, a morte que é a melancolia da sua ausência. O desaparecimento da ideia do belo resulta da sua politização: a beleza em si foi desprezada em favor de uma beleza ética, que muitas vezes se impõe através das imagens contrastantes do horrível - ou mesmo, nos seus momentos mais intensos, de uma beleza épica, que ressuscita sempre nos lugares e momentos de tragédia. Esta beleza épica relaciona-se com o sublime, beleza extrema que, na sua extrema intensidade, se torna dor, vazio, o terrível emudecido. O horrível pelo horrível torna-se infantil, habitual, insignificante, do mesmo modo que o belo pelo belo se torna frustrante.
(...)
Precisa mesmo de se despedir desse Sebastião? Para quê carregar essa nossa curta existência com despedidas? Ninguém sabe despedir-se de nada - não inventamos a eternidade para evitarmos as despedidas?
(...)
Talvez um dia morras, e eu não saiba -  e isso significa apenas que te continuarei amando vivo, e que viverás em mim enquanto eu viver. É essa a imortalidade em que acredito. (...)"
In: A Eternidade e o Desejo,
Inês Pedrosa.