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janeiro 09, 2010

"What do you mean?"

Nunca gostei da expressão "verdadeiros amigos." As qualidades moram no corpo quente dos substantivos, imperativos, capitais pela absoluta necessidade da sua permanência dentro da nossa casa. A expressão é viscosa e assume-se como permissão para a decadência, para que o adjectivo corrompa a essência de uma coisa que se basta a si mesma, nascida sob a bandeira da partilha. Basta-se a si porque enorme, não se admite que o adjectivo prevaleça, anteceda esse reduto de tudo. Num tempo em que tudo é volátil, nervoso, furo num horário que nos rouba a autodisponibilidade cumpre manter-se a exigência de verdade. Há coisas intransmissíveis, de cunho absolutamente pessoal que só chegam à boca das palavras quando o outro já as adivinhou na ternura morna da intimidade. Acredito em nomes intransitivos, ciosos da sua integridade como um reflexo das pessoas que os usam, como uma fiel emanação desse cordão mágico de sentidos que aproxima as pessoas para uma expressão conjunta, plural. As qualidades dessa relação exprimem-se na constância da mesma, transpiram dos actos, dos momentos que a agigantam. Há uma confiança nesse exercício de subjectividade que afasta o espectáculo do catálogo - "Ele é...; ela é..." - que só interessa quando a dúvida é do tamanho do nosso desinteresse pelo outro. Não quero isso. A pergunta, quando nasce, não é retórica, é confirmação e sentimento. Verdadeiro.

abril 30, 2009

"Ter da saudade o que queres"



Talvez um dia a voz dos acontecimentos deixe a tua própria respirar, talvez.
Digo-te isto e agarro-me à tua mão como que puxando a tua história de encontro à minha vontade de mudar o mundo.
Queria que as certezas que nos colocam sobre os ombros para caminharmos pelo mundo desaparecessem. Continuo a sentir que a justiça devia ser o caminho, não faço a apologia dos heróis porque sei que, dentro do estoicismo, correm gritos de cansaço feitos da carne humana tão invisível.
O que interessam passos vazios e conversas leves que o vento da memória limpe ao virar dos dias? Quero ficar ao teu lado, quero abraçar a tua desgraça e sentir o abismo da derrota ser maior do que o da solidão. Sim, perdemos o rumo lá fora mas temos sempre esta casa que é a amizade sem limites, sem horas e temas, sem agenda.
Um dia, explico-te. Que venha esse dia e todos aqueles em que a compreensão da vida se faça pela entrega, pelas lágrimas e alegrias que nos juntam, pedaços colados mil vezes pelo cuidado que colocamos no que gostamos.
Não interessa se somos menos sortudos ou se os outros algum dia vão perceber. Não tenho tempo para isso. Só sei que, até hoje, chegaste até mim e soubeste lembrar como o primeiro passo para construir. A história vai sendo cosida pelas mesmas mãos desamparadas que perguntam.
Só sei que a resposta não passa de uma dança de volta. Ao mesmo sítio, onde a mentira do mundo tem o sabor da verdade, a nossa.