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junho 28, 2013

Dentro de Ti ver o Mar.

"Quando se cansava dos livros, ou lhe escorregavam das mãos, incapazes de a entusiasmarem, procurava na Internet frases-corrimão às quais se pudesse agarrar. Corrimãos cada vez mais frágeis; as palavras pareciam velhas, secas, exaustas pela tentativa de mudar o mundo. Possuíam uma capacidade inflamável, talvez por nunca serem capazes de absoluto.
(...)
Quando cantava, Rosa sentia que a voz se separava de si e subia os degraus de uma escada de luz. Era ela quem cantava o fado ou o fado que a cantava? Cantando, deixava de ser rouca e de tropeçar nas palavras. O seu sofrimento tornava-se alto como a noite e tão perfeito que encontrava assim uma forma de consolação.
(...)
Só o amor que Gabriel originara nela, um amor escuro, imóvel, feito da matéria da música e das palavras, a empurrara para o interior do seu talento, libertando-a do absurdo da História e da sua contingência
(...)
Praticamente ninguém se afoitava a ir mais longe do que o seu reflexo no espelho. Talvez tivessem sido assim desde o início dos tempos, superficiais, escapando a mergulhar na vida pelo pavor de antecipar a morte. O homem sensato matará metade de si para poder viver durante mais tempo - era este o fundamento de todas as culturas, o preceito central de todas as religiões.
(...)
A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão. Exige o dom da metamorfose e um alto grau de domínio perante a dor. O artista, como o amante, tem de ser capaz de sair da sua própria pele para se colocar dentro da pele do outro. Esvaziando-se na entrega, ganha também imunidade à dor -  há sempre um lado que contempla, de fora, a obra que dentro de si se está gerando. O artista sente-se um surpreendido Deus. O sopro da divindade, ou dessa iluminação súbita que a ela se assemelha, surge no ser humano por intermitências, frágil chama sobre corpos tocados pela vulnerabilidade do conhecimento antecipado da morte. Pode então suceder que o amante se encontre sufocado na rede de um amor desprezado, sem conseguir extrair desse amor mais do que raiva. Ou sofrimento.  
(...)
Gostou tanto da luz das velas, do silêncio ritual, do dedilhar da guitarra e do vinho como da canção propriamente dita. Gerou-se uma festa instantânea entre Rosa e Farimah, uma daquelas coisas de pele que apenas se referem nas relações de amor mas que constituem o lume inicial das grandes amizades; as paixões platónicas possuem também a sua lascívia.
(...)
Gostava de livros; ultrapassara todas as crises da sua vida com um livro debaixo do braço. Na dúvida, lia. Quando alguém o provocava, abria um livro e ignorava a provocação.
(...)
As palavras ficam sempre aquém da dor.
(...)
Todavia, trazia o pai por todo o lado, como agora a mãe, depois de morta.
- O dom da ubiquidade existe. Há pessoas que têm o poder de materializar a sua imagem num sítio onde não estão.
(...)
Na verdade, afeiçoamos o passado ao molde dos medos do presente; os olhares puros não têm data, sobrevivem ao cinismo contemporâneo como à maldade lisa que supomos ser sua avó. E o desejo é uma questão de cheiro e de pele, coisa animal que transcende a elaboração das transcendências. Farimah e Mandela amaram-se como estranhos e iguais, porque são essas as matérias do amor, relâmpago que tudo abre.
(...)
Rosa procurava o pai porque precisava de saber de onde vinha para saber para onde queria ir. (...)
- Queres a segurança mínima do teu espelho original. Ser completamente livre é impossível, pesa demasiado. Eu percebo-te.
(...)
Olhava-me como se nunca acabasse de me ler. Os livros eram o seu ar, é isso que ele tem de melhor e de pior: o que se passa fora das páginas não interessa, não acontece verdadeiramente, especialmente quando acontece em precipício. As palavras protegem-nos da queda dentro dos precipícios dos livros. Desabam-nos e erguem-nos.
(...)
Antes de entrar no palco da Casa de Portugal, Rosa descalçou-se. Precisava de chão. Estava exausta de procurar a terra no corpo dos outros. Não havia terra para lá das fronteiras da pele; cada pessoa era uma país, quando o conseguia ser. Ela sentia-se terra-de-ninguém, excepto quando as luzes se apagavam e a voz se erguia, no silêncio, cantando tudo o que não conseguia dizer nem chorar.
(...)
Não valia a pena acrescentar que o ódio é ainda um tributo do amor, que o bem e o mal se embaraçam de tal modo que a partir de certo ponto não conseguem destrinçar-se.
(...)
-Tudo dói. Cada palavra traz uma dor.
- E cada silêncio também.
(...)
Isso a que chamamos a nossa vida não existe - é um enxame. O que distingue uma vida da outra é o murmúrio do sonho, a distância a que cada um se coloca dele, o modo de brincar aos abismos.
(...)
As histórias não têm princípio nem fim; agarramo-las como náufragos em busca de calor e devolvem-nos uma vida distinta da que julgávamos viver.
(...)
O que é a paixão senão um movimento de fuga ao tédio da existência e um recurso da vaidade?
(...)
A vantagem de se chegar a um ponto de exaustão é que então só sobra a liberdade."
In: Dentro de Ti ver o Mar,
 Inês Pedrosa.

março 24, 2013

O Vale da Paixão.

"Sim, tinha chegado a hora do silêncio, o século do silêncio, ele estava a iniciar-se com o ruído da fogueira no descampado, rente ao faval raquítico, nas encostas de arneiro onde assentava o quintal da nossa casa. Onde assenta. O silêncio apontava com o dedo o que iria acontecer, apontava o caminho do futuro da terra. O silêncio dizia que o céu seria assim. Um grande espaço sem nada, onde ninguém teria recordação de nada, onde não haveria ninguém para se lembrar de nada. Nada existiria no céu. Nem desejo, nem dor, nem lembrança de qualquer afeição. O céu seria assim. Os regatos congelados, as nuvens ausentes, assemelhando-se tudo a nada. Seria nada o céu. Que bom o céu ser um espaço aniquilado, o trabalho do homem dispensável, o amor em estado puro, parado. Isso seria o céu. Aqui na terra, ainda não. Ainda nos movíamos como animais, ainda traçávamos estradas, ainda tudo estava em movimento, mais que não fosse para tombarmos e então termos existido antes, depois termos existido muito antes, e por fim, já nem termos existido. Sim, assim seria o céu.
(...)
Mas ela tem quinze anos e é já uma mulher velha. Já imaginou cem mil sóis levantarem-se e outros tantos pousarem, e por isso ela sabe que o novelo está feito, e como uma mulher muito idosa de alma entrevada, ela sabe ficar onde está, sabe que é melhor não entrar. A rapariga velha tem quinze anos no Bilhete de Identidade, mas não é verdade. A rapariga velha é uma mulher muito antiga. Tem um século dentro da cabeça ou talvez mais, tem o início d'Ilíada dentro das pálpebras, tem uma infinidade de mortos aqueus e troianos estendidos na sua língua, tem o fim daquele livro na cabeça e sabe que, há milhares de anos, tudo está amalgamado ao longo de uma praia sob nove camadas de areia. Por isso sabe que não vale a pena dar um passo para mudar, a comédia é a mesma. Correr para diante é ir ao encontro do que ficou para trás.
(...)
Sim, era muito bom, mas a natureza humana repudia a bondade exagerada da Natureza, não confia na estabilidade dela nem acredita que seja seu simulacro, e ela achou que, perante aquela regularidade do azul espampanante do céu e do mar, aquela paz furiosa nascida de uma beleza gritante, era preciso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa que rebentasse aquilo que se erguia na sua frente, harmónico e singular, e lembrou-se da noite em que sentira alguma coisa de semelhante, lembrou-se da noite da chuva. Uma mistura de risco minando a beleza, rasgando a beleza suprema, deflagrando-a, e estupidamente, cretinamente, lembrou-se também do revólver Smith.
(...)
Durante a discussão, o que ela quer dizer é que a sua alma, o nicho onde ela se enrola e esconde, onde ela pernoita, onde ela sabe o que sabe e desconhece o que é para desconhecer, esse sempre fora intocável. (...) Essa a sua herança de preservação, a sua coutada real onde só ela caçava, só ela largava os seus cães e apanhava os seus cervos armados.
(...)
Não se pode salvar. Todas as cartas que vier a escrever serão sobre esses objectos mortos que jazem por terra, que estão pendurados das paredes, que estão na rua à chuva, nos buracos luarentos dos palheiros, nas geringonças dos sarilhos dos poços, nos alcatruzes das noras, presa das mortes dos criados e das meninas que nelas se afogam, das avencas que fazem molhos verdes e se confundem com o dorso dos sapos. Está presa do sapo, da salamandra escura de rabo torto, do álamo, do cipreste, do cemitério branco onde os seus antepassados desfizeram os ossos, os seus nomes presos ao solo, antes de desaparecerem nos confins perpendiculares da terra, onde por acaso também está a pedra do Dr. Dalila. Ela está presa ao coração oculto das pedras. Ela nem vai, só regressa.
(...)
Mas sobre o infinitamente insignificante que a sua memória aos pedaços retinha e a passagem do grande resto que era esse infinito oceano exterior deslizando veloz, erguia-se, vigoroso e concreto, o que ela própria amava. Ela sabia desde há muito, que para si mesma, em certas noites de chuva, a história da humanidade era menos importante do que a história do seu pai, por indigno que fosse pensá-lo, quanto mais dizê-lo, ainda que o fizesse em voz baixa. "
In: O Vale da Paixão, Lídia Jorge.

novembro 21, 2012

A Árvore das Palavras.

 
 
"Porque tenho a certeza de que tu és bom. É uma certeza grande, como saber que a terra gira, o sol nasce ou as estações do ano se sucedem. Tu és bom como as árvores são árvores e a chuva é chuva. Não é preciso reflectir sobre isso, porque também ninguém discorre sobre as evidências.
Viver é muito fácil, porque meço a partir de ti o norte e o sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem. Estás sentado na cadeira-à-aviador e eu ando em volta, parto para mais perto ou mais longe, posso mesmo voltar-te as costas e partir noutra direcção, sei que não vou perder-me, porque tu estarás sempre sentado, a ler o jornal, ao fim da tarde. Todas as vezes que eu voltar a cabeça, ver-te-ei.
Um homem bom é uma luz na janela. As coisas ganham limite e solidez, brilho e cor, e eu caminho dançando por entre elas. É porque estou segura que ganho a liberdade de dançar, é porque não tenho medo que improviso, é porque ignoro a rotina que me entrego ao fulgor. A dança é isso, um modo mais intenso de existir. As árvores dançam, as folhas dançam, a chuva dança, os animais dançam, o sol e a lua dançam. Tudo o que há a fazer é deixar-se puxar para dentro do seu círculo, deixar-se sugar sem medo para dentro da órbita desmesurada das coisas. Então a vida começa a passar por nós e inclui-nos e nós baixamos a cabeça de dizemos «sim» e dançamos. (...)"
In A Árvore das Palavras, Teolinda Gersão.

setembro 11, 2011

Pensemos, pois.


159. Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que depois deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções, memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos de onde vem. A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer. Mas havia sol e a alegria dele era gratuita, sem finalidade nenhuma, e isso agravava-lhe o absurdo de ser. As águas brilhavam até ao indeciso do seu limite. Um homem ocasional, eu, olhava o seu mistério inquietante, tentava entender a estranheza de tudo isso. Sentia a presença de uma realidade inexistente, porque ela não existia senão no que estava vendo e, no entanto, eu sabia, na minha inquietação, que estava lá. Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o «escrever bem»? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dele. Assim ela constrói outro mundo que aponta apenas para o primeiro mas se não parece nada com ele, mesmo quando se parece e todos os elementos se lhe ajustam. Porque aquilo com que se parece é o invisível dele, a outra coisa das coisas, o mistério que lá mora e se reconhece, depois, que lá mora e o reconstrói na sua invisibilidade para ser enfim o real como tal reconhecido. Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir, porque ele o revelou. E é tudo.

179. Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo conluio com Deus.
Vergílio Ferreira,
In Pensar.

agosto 12, 2011

Missa in Albis [II].


"Então Sara põe-lhe a mão na boca. Está fria e Simão agarra-lhe o pulso. As faces juntam-se e é uma doçura de prodígio que lhe cai da respiração ao ventre, um redemoinho. As telas pulsam cheias de um sangue tingido de fogo e as bocas são como o glóbulo das mãos, o abraço inteiro. 'A alma é isto', pensa Simão e que gostaria de morrer ali. 'Se morrêssemos aqui', diz Sara.
(...)
Sara: Por que me feres? Tenho culpa que haja mundo e outros?
Simão: Entre mim e ti, tens.
(...)
O que parecia desprendimento e até paixão, não era mais que o limiar estremunhado do sono em que sempre viveu, rodeada de espigos da própria pele e de familiares mordazes, igualmente atingidos de um mal na moela do ser mas mais vigorosos.
(...)
Um livro nunca é o pleno terror, como uma cidade pode sê-lo; nem o esplendor de um outro ser amado.
(...)
Bem mais desgraçado é tentar reaver que haver: a honra, os bens, a liberdade. (...) Depois é a noite, Minha Filha, com todos os seus rumores e recrudescer de lembrança, que tal é a simpatia da noite com o intemporal. Assim esta. A noite que tudo altera e onde descaem as máscaras da compostura e as da esperança e todo o caminho andado se volve passagem obscura que para esta mesma noite ameaça. (...) No espelho eu estou de traje civil, e curvo-me sobre o tripé, os contornos difusos, a postura do pedido a que o seu meio-sorriso condescende, que não esse olhar alagado de um susto, que tem sempre, esses olhos de quem não nasceu criança.
(...)
Amar um pouco, que é a amizade e por isso a despeço dos meus hábitos, face ao desastre acarreta sempre a culpa de ter amado de menos. Tão mais tenaz quanto o houver sido a amizade.
(...)
Todos os medíocres possuem o talento da redução à verosimilhança; para a verdade carece o desvio da imaginação.
(...)
'E a beleza é a maior praga', disse o ex-médico, 'Convida-te a morrer.'
(...)
Sara respondeu-me que então só a autobiografia seria lídima e que, tirando Cão, que tinha voltado a comer, só lhe tinha acontecido quem ela tinha inventado.
(...)
A Igreja tem a confissão, que é uma forma de organizar o que digo: peca-se, cochicha-se ao padre e não há que mudar coisa nenhuma do que agrada a Deus, que é o que não muda.
(...)
Mas falar contra o tanto tempo não é abrir a boca. O muito tempo faz de tudo uma invenção. E inventar é sair incólume, pois não é, menina? Quem muito imagina faz-se imaginário e então quem pode assacar-lhe o quê? Tudo é prenda.
(...)
Fomos sujeitos à pedagogia pervertora de uma casta que não perdoa morar nas nossas casas, a proximidade sem mudança de estado: as serviçais. Com o filho do patrão todo o criado é mensageiro da dúvida, iniciador da suspeita que está na origem do conto. Que o conto não é registo, nem os Evangelhos, mas sempre revelação de um poder sobre a paternidade.
(...)
Teodora pensou noutra regra do género: o herói ou é rico, ou casa rico a contragosto com a heroína rica. O romanesco de evasão nunca é de pobres.
(...)
Nunca quis crer que hajam civilizações insondáveis, dominador e dominado é que têm pouco a dizer-se, que do conhecimento vem a estima.
(...)
Quando me perdi de ti, perdi-me de Deus, ou Deus perdeu-se em ti, não sei. Deixei de escutar o milagre, não havia mais essa sintonia iluminada, esses avisos de tudo num delicioso terror, e o Aleixo dizia-me que era um estado humano muito mais conforme, que tu me punhas numa histeria crítica que não tem nada a ver com o catolicismo são. (...) 'Agora sei que esta cara há-de acompanhar-me até ao fim e trespassar todas as outras.'
'O rosto da tua morte', disse Sara, respondendo às carícias, mas triste.
(...)
'Falas com maiúsculas', disse Simão a Sara, 'o Amor, a Justiça, Deus, como é que não te queres sentir defraudada e confusa?'
(...)
E pois que a paixão não é senão uma forma arrebatada de viver o medo, a permanente descrença do lugar em que somos, o objecto dela há-de retaliar da falácia. Oferecer-se a alguém é coagir a harmonia.
(...)
'Menti-te, é verdade. Pesa a minha mentira contra a natureza das tuas omissões. Só o interesse de outros me pode defender do terror de ser aniquilada pela tua perda. O amor que te tenho deixa-me totalmente indefesa, sem pele e sem mobilidade. Esse é o sinal do grande amor, qualquer dúvida torna-se intolerável. Fico suspensa de agonia com certos olhares teus a umas canelas, ou com os que trocas, breves que sejam, com alguém que passa. Um momento de desatenção é um suplício, um atraso é uma agonia de ciúme, e tu não és pontual.
'Preciso então da companhia de alguém a quem ame menos e que me deseje. É o princípio dos vasos comunicantes - fazer preencher o vazio transido que me deixa a dúvida de ti. Não é o que tu fazes alta noite, quando eu não posso seguir os teus passos até esses sítios onde sei que te deitas e me omites?
'Não me digas, como já disseste, que para um homem é diferente, que coisas dessas nada significam. Pois não significam o mesmo? Que te leva a esses excessos, que eu não cometo com ninguém, senão a necessidade de te distanciares das fauces de devoração disto, sempre abertas? A carne humana nunca é só carne, é com a tua alma que vais comprar um comércio carnal que te defenda do amor comigo.
'Somos iguais, a nossa circunstância é que é diferente. A minha defesa de ti está à vista, pelas ruas da amargura, por assim dizer, que crê que o pouco que me acontece ao coração e à mente, longe de ti, é vaidade; a tua processa-se em casas escuras, que por mais que digas de passe não são de passar sem deixar lá alguma coisa de mim, bem física na taquicardia e náusea que me dá ao imaginá-las.'
(...)
Depois me veio a dizer que soube logo, com resignação, que seria eu ou mais ninguém. Que esperara toda a vida e me reconhecera logo, de si, do seu sangue, por isso citara Florbela Espanca, que a impresssionara muito. Pensar que há sentimentos que os livros forjam, filha.
(...)
Ora quem gere os bens sempre se sente autorizado a gerir os afectos.
(...)
Sei pela minha, que a vida e os seus gestos tendem a repetir-se, não em farsa, mas até que alguma tragédia nos liberte delas, farsa e vida. E a verdade é que sem explicação múltipla não há mistério.
(...)
Comentava as montras de próteses: 'O que não se diz do fascismo é que aleija toda a gente, para sempre.'
(...)
Ora Sara decidiu-se a impor a sua expectativa. Para fazer um casamento de razão é preciso ser razoável e não pôr expectativa onde deve apenas haver esperança. Convencida que o que se passava entre ela e Simão era um hábito e um estado de espírito que se logram como uma receita de aspic, um trabalho fino, como as mayonnaises que aprendia com Irene Vizi, aceitou a assiduidade de Aleixo Garcia. Confundiu um acontecimento, oh bem concreto, com o jorrar de uma nascente, com um episódio da construção civil. O casamento é isso, mas ela confundiu-o com o amor.
(...)
Foi com Sara que aprendi que o escrutínio de uma progressão intensifica o prazer, afia os sentidos. Ela fechava-se ali como por dentro de uma obra onde erigia em verde.
(...)
A grafia é uma forma de petrificação; mais que o desenho ou a fotografia, que têm vida própria. As outras fixações são móveis. A vida do que se grafa fica em fóssil."
Maria Velho da Costa.

agosto 05, 2011

Missa in Albis.


"'É muito difícil a graduação do amor', recomeçara Sara. (...) - Amados, somos amados, só, sós. Estou tão cansada, imperfeita, imperfeita. Amar da alma alguém, tu sabes. Entre nós, tão profundo é o contrato... não há mais nada, mais ninguém senão a multidão dos outros a espiar-nos como se fôssemos um só, santificado, ou vidente, o núcleo de um painel, sabes.
(...)
Acho que ando distraído, caminho por debaixo de água e nada me toca, a não ser cada obrigação delimitada. Ou tu.
Mas não gostas de mim.
Gosto tal. Mas sempre falei contigo coartado da sedução. Ou esperando que isso fosse sedutor.
Foste o meu primeiro namorado de alma, Martim.
Não, a tua mãe foi, e ainda há traços disso no horror que se têm.
Como tu me ofendes. Ela nunca foi minha amiga.
Deixa lá, um dia a nossa memória disto não será a mesma. Mas digo-te que é matéria muito reservada e que há-de acabar desfeita, se a contam. Não há linguagem para certas inclinações e afinidades. Tudo o que se diz se esgota ou é lateral ou menor que um beijo na face.
É como se estivesses de luto pelo que não vais ser ou me avisasses.
Que devia eu ser?
Alguém que conta. Se a ideia da impossibilidade de contar é a tua resposta ao que eu te conto. Eu acho que vou morrer, Martim. Deus deu-me o Simão porque quer comer de amor a minha vida.
(...)
Porque contar um caso em que fui cada vez mais um confidente desalojado da vida e da memória dela, Sara? A última vez que a vi ainda com alguma saúde já não falámos nada, uma polidez deprimente, sabendo ambos que nem a recriminação mútua faria sentido. Envelhecer é isto, perder o gosto de uma intimidade juvenil que se julgou derradeira.
(...)
Tinha ainda muito dos hábitos confessionais de criança, apesar do ódio explícito. E a mãe ainda conseguia fazê-la chorar da rejeição; foi ali que aprendi que os hábitos do amor são mais duradoiros que o amor. (...) A ignorância, não a crença. Dava-me tempo, não sabendo que também isso forma um hábito.
(...)
'Deixe lá', tratavam-se por você ou a menina, como era de uso em certos meios do meio, firmados na prossecução de um modelo de comportamento feminino em fim de adolescência - reputação, boas maneiras, sedução e bom gosto, ou seja, o gosto de uma minoria preocupada em não cometer audácias, sugerindo-as.
(...)
'Envelheço séculos, às vezes, horrorosa como uma gárgula, uma harpia; como as palavras puxam as palavras e possivelmente as caras, as coisas.
(...)
Sempre amava Martim, mas não era de amor, era... 'De dentro da caixa do peito', disse alto.
(...)
Ninguém fala como é, pensou, nunca dizemos a ninguém que traz consigo assombros e desastres, à primeira vista. O esforço de logo parecer, a bravura mundana, tão inúteis como esta ignomínia de uma inveja de coisas e de uma expectativa de alguém, descoroçoadas de fracassos, incentivadas por pequenas vitórias dentro de uma grande perda. Na massa do sangue.
(...)
Simão disse que a sincronia e a repetição eram de facto o que apaziguava os deuses. Dora levantou-se com o diagnóstico de doutorices, mas Sara pediu-lhe que repetisse, divertida e alarmada.
- Os coros, as rezas públicas, as coincidências, os duetos de ópera, a cantiga que se ouve assobiar na rua síntona com o que nos vai na alma ou noutro sítio igualmente obsceno, não é isso que apazigua, que nos dá  o sentimento de que não há caos, destruição final?
(...)
Não amo a desgraça nem o excesso de graça, mas posso contá-los. Era um salão com lustres e de gente com duzentos milhões, pelo menos, de renda anual em angolares e francos suíços. O meu coração não é duro, porque nesse tempo eu não faria contas dessas. Ao princípio fascinaram-me as relações exemplares. Depois apercebi-me que essa raridade era uma ofensa, como uma desmesurada conta na Suíça e, felizmente, muito mais rara. Os amores únicos e a sua crónica devem ser deixados a escritores menores, os agiotas da ilusão. Ou pervertores de consciências. Ah, se o amor é fulminante e arbitrário, porque não preferir o poder ou a sua prima triste - o conhecimento?"
Maria Velho da Costa.

julho 31, 2011

Ao meu Avô.

(...) Pero también
la vida nos sujeta porque precisamente
no es como la esperábamos.
Jaime Gil de Biedma.

"Em pequeno com os meus pais era pequeno demais para lembrar-me. Havia Lagos e não me recordo de Lagos, do mar, da minha mãe jovem. Pessoas intemporais passeiam-me vagamente na memória, a figueira sobre o poço oscila ainda os ramos desfocados, a criada do abade, de mãos cruzadas sobre o avental, sorri. Não, espere, o meu irmão caiu um dia ao tanque, debatia-se nos limos, entre os peixes. Comecei a gritar. (...) Às vezes sentava-me nos degraus de pedra do quintal, junto à janela para a rua, e apetecia-me chorar. Sem motivo: chorar. Tinha seis, sete, oito anos, não sei bem. (...) Mesmo hoje me acontece essa comichão na garganta, essa aflição, o corpo de repente tenso, duro, grávido de uma angústia inexplicável. Aos domingos à noite, por exemplo, quando tudo se torna absurdo, ridículo e triste, e me assemelho a uma múmia acocorada no chão da cozinha, à espera, vem-me à ideia o miúdo nos degraus do quintal, repleto de uma melancolia suave e cruel. E no entanto (você nunca entenderá isto) acho que em certo sentido era feliz: não ia morrer, a minha família gostava de mim, assistia ao caseiro a compor as plantas com os grossos dedos inexplicavelmente delicados, compor uma planta como uma estátua viva, de carne. Pétalas, sépalas, estames, troncos direitos, frágeis, de mulher. Quando o avô morreu o Pedro chegou a casa a correr: tinha já quase voz de homem nessa altura e os olhos dele pareciam dois pingos de verniz. Estão a comprar o caixão para um de nós. De facto, apesar do receio do escuro, da minha solidão selvagem e a falta de massa, era feliz. (...) É sábado de manhã e vai chover, pensei. Vai chover o sábado inteiro, monotonamente, a chuva lisa, igual, silenciosa de Maio, leve e melancólica como a recordação do meu avô, de quem me lembro às vezes se estou só, a reconstruir no tecto a frágil arquitectura do passado. É sábado de manhã e um funil de horas desesperantes aguarda-me."
in: Conhecimento do Inferno,
António Lobo Antunes.

julho 27, 2011

Conhecimento do Inferno [II].

"Tinha fome, tinha sono, tinha vontade de urinar mas não podia deitar-se, porque os Luchazes só se deitam a seguir ao crepúsculo e o crepúsculo não vinha: depois do dia do sol seguiu-se o dia dos candeeiros, depois do dia dos candeeiros seguiu-se o dia do sol, e António Miúdo Catolo aproximou-se ansiosamente da janela para aguardar a noite, espiar o azul das primeiras trevas na crista dos telhados, adivinhar as sombras que lhe permitissem estender nos lençóis o corpo exausto, enrolado de cãibras como o dos vitelos fatigados. Os automóveis continuavam sempre a buzinar na rua, vozes subiam constantemente da praça, os anúncios de néon lambiam o peitoril ao ritmo cardíaco das suas línguas roxas, expulsando para muito longe o silêncio do escuro e a paz de crisálida necessária ao sono. Mesmo os pombos permaneciam atentos em redor das estátuas, fixando-o com as bolinhas de vidro acusadoras das pupilas, e ele sentiu-se vigiado pelas almas em pânico dos seus mortos, saídos da terra, sob a forma de pássaros, no intuito de o proibirem de adormecer. António Miúdo Catolo esteve setenta e duas horas em jejum, urinando-se de terror nas calças novas, com o nariz encostado à janela a que se colava um meio-dia sem fim, até a dona da pensão abrir a porta, lhe tocar no ombro com o dedo, e ele escorregar pelo corpo dela até ao soalho, sem uma palavra, e ficar crucificado no capacho à maneira do cadáver de um gato atropelado na estrada.
De modo que anos volvidos, no planalto dos Bundas, após ter apertado a mão a um ministro qualquer, posado para as fotografias do jornal, e regressado ao seu país de rumorosas trevas, ao seu país em guerra de rumorosoas e agitadas trevas, o Muata dos Muatas, livre já do pesadelo de uma cidade diurna, me mirava de viés pasmado da minha ignorância de Lisboa, da estupidez que me vedava o entender que na Europa, nesse idoso e triste continente de catedrais e túmulos, a noite não existe e as pessoas se transformaram, a pouco e pouco, em pálidos espectros ambulantes tropeçando nas ruas à procura de um descanso impossível.  (...) - A noite em Lisboa é uma noite inventada - disse eu  -, uma noite a fingir. Em Portugal quase tudo, de resto, é a fingir, a gente, as avenidas, as casas, os restaurantes, as lojas, a amizade, o desinteresse, a raiva. Só o medo e a miséria são autênticos, o medo e a miséria dos homens e dos cães."
António Lobo Antunes

julho 14, 2011

Conhecimento do Inferno [I].

"Amanhecera algumas vezes no silêncio de uma casa imóvel, pousada como uma borboleta morta entre as sombras sem corpo da noite, e olhava, sentado na cama, os contornos difusos dos armários, a roupa ao acaso nas cadeiras como teias de aranha cansadas, o rectângulo do espelho que bebia as flores como as margens do Inferno o perfil aflito dos defuntos. Vinha cá fora observar os insectos em torno das lâmpadas no silêncio do ventre secreto do Verão, de ventre morno e secreto de mulher no Verão, sentia o doce cheiro putrefacto do levante na pele, escutava o rumor desordenado das acácias e pensava (...) Estou na quinta do avô perto dos bancos de azulejo e dos galinheiros em repouso, se eu fechar os olhos penas brancas, soltas, descer-me-ão no interior do crânio numa leveza de neve, e acocorava-se no alpendre, incrédulo, sob as estrelas de vidro do Algarve, coladas ao cenário do tecto de acordo com uma geometria misteriosa. E, como sempre acontecia no decurso das insónias, os malucos da infância, os ternos, humildes, indignados, esbracejantes malucos da infância principiavam a desfilar um a um pelas trevas numa procissão ao mesmo tempo miserável e sumptuosa de palhaços pobres iluminados de viés pelo foco obliquo da memória, ao som da música antiga do gramofone do sótão. (...)"
António Lobo Antunes

maio 20, 2011

Contos Exemplares.

"Era dia de orquestra. A orquestra vinha duas vezes por semana de uma praia vizinha. Os músicos eram magros e novos e tinham smokings velhos, ligeiramente esverdeados pelo uso e pela humidade das invernias marítimas. Eram músicos falhados: sem grande arte, com pouco dinheiro e sem fama. Deviam ser ou resignados ou revoltados. Espero que fossem revoltados: é menos triste. Um homem revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Mas a resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser, é o falhar completo e sem remédio. Mas os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo - a luz do candeeiro e a luz da Primavera - dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir. (...)"
Sophia  de Mello Breyner Andresen.