Há 1 mês
maio 02, 2009
(Qual) Verdade e (qual) Consequência?
O sonho é um antídoto contra a morte. Ler, para a vida, a contrario?
maio 01, 2009
00.00 FM
Fui procurar no meio das "obras". Entrei no meio do teatro onde todas as possibilidades se afinam debaixo de um barulho que é o da vida a passar em catálogo, ao lado. Qual das ruas sigo e qual das paisagens abraço? É no meio do deserto, dessa luz seca e dura que o sonho se pode expandir mais, através da luta e das dificuldades.
Aprendo a ouvir com o sentir e a ver depois disso. Esqueço que há que andar sem sentido se perder é o lugar da partida. Há que fazer da vida um corredor de fotografias que nos coleccionam primeiro do que a morte, do que o viver nos intervalos. É onde tudo se mistura e tudo arde que devemos ousar colocar as nossas mãos para que da dor da tentativa se faça coragem para respirar. Debaixo do manto pesado dos escolhos encontrei as combinações que a imaginação concebeu e outras que ela pediu emprestadas.
É uma questão de preparação: quando é que o barulho se torna música e quando é que as notas nos fazem querer voar? Ir mais longe, atravessar o rio, unir as margens. Fazer nascer água de dentro da superfície dos dias, inundá-los de sentido ou de sonho, tentativas. Podemos coser, rasgar, decifrar, rectificar para que possamos sobretudo aprender.
O lugar da sabedoria é o daqueles que não têm medo de sofrer. Ouve o mundo depois de te escutares.
abril 30, 2009
"Ter da saudade o que queres"
Talvez um dia a voz dos acontecimentos deixe a tua própria respirar, talvez.
Digo-te isto e agarro-me à tua mão como que puxando a tua história de encontro à minha vontade de mudar o mundo.
Queria que as certezas que nos colocam sobre os ombros para caminharmos pelo mundo desaparecessem. Continuo a sentir que a justiça devia ser o caminho, não faço a apologia dos heróis porque sei que, dentro do estoicismo, correm gritos de cansaço feitos da carne humana tão invisível.
O que interessam passos vazios e conversas leves que o vento da memória limpe ao virar dos dias? Quero ficar ao teu lado, quero abraçar a tua desgraça e sentir o abismo da derrota ser maior do que o da solidão. Sim, perdemos o rumo lá fora mas temos sempre esta casa que é a amizade sem limites, sem horas e temas, sem agenda.
Um dia, explico-te. Que venha esse dia e todos aqueles em que a compreensão da vida se faça pela entrega, pelas lágrimas e alegrias que nos juntam, pedaços colados mil vezes pelo cuidado que colocamos no que gostamos.
Não interessa se somos menos sortudos ou se os outros algum dia vão perceber. Não tenho tempo para isso. Só sei que, até hoje, chegaste até mim e soubeste lembrar como o primeiro passo para construir. A história vai sendo cosida pelas mesmas mãos desamparadas que perguntam.
Só sei que a resposta não passa de uma dança de volta. Ao mesmo sítio, onde a mentira do mundo tem o sabor da verdade, a nossa.
abril 25, 2009
Acordar
Um dia, quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas;
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada para fora
de nós, é tudo o que temos nesta vida.
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas;
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada para fora
de nós, é tudo o que temos nesta vida.
Nuno Júdice
Rotação
É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.
Nuno Júdice
Solidão
Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. A pago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. "É um mundo impenetrável", diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice
O amor, dizes-me
Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
suspenso de gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o seu próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso desse sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzido em
breves palavras com a sua silenciosa verdade.
suspenso de gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o seu próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso desse sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzido em
breves palavras com a sua silenciosa verdade.
Nuno Júdice
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