novembro 21, 2012

A Árvore das Palavras.

 
 
"Porque tenho a certeza de que tu és bom. É uma certeza grande, como saber que a terra gira, o sol nasce ou as estações do ano se sucedem. Tu és bom como as árvores são árvores e a chuva é chuva. Não é preciso reflectir sobre isso, porque também ninguém discorre sobre as evidências.
Viver é muito fácil, porque meço a partir de ti o norte e o sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem. Estás sentado na cadeira-à-aviador e eu ando em volta, parto para mais perto ou mais longe, posso mesmo voltar-te as costas e partir noutra direcção, sei que não vou perder-me, porque tu estarás sempre sentado, a ler o jornal, ao fim da tarde. Todas as vezes que eu voltar a cabeça, ver-te-ei.
Um homem bom é uma luz na janela. As coisas ganham limite e solidez, brilho e cor, e eu caminho dançando por entre elas. É porque estou segura que ganho a liberdade de dançar, é porque não tenho medo que improviso, é porque ignoro a rotina que me entrego ao fulgor. A dança é isso, um modo mais intenso de existir. As árvores dançam, as folhas dançam, a chuva dança, os animais dançam, o sol e a lua dançam. Tudo o que há a fazer é deixar-se puxar para dentro do seu círculo, deixar-se sugar sem medo para dentro da órbita desmesurada das coisas. Então a vida começa a passar por nós e inclui-nos e nós baixamos a cabeça de dizemos «sim» e dançamos. (...)"
In A Árvore das Palavras, Teolinda Gersão.

setembro 20, 2012

Nas tuas Mãos.

"Dizem que o amor se faz de uma comunidade de interesses subterrâneos, restos de vozes, hábitos que nos ficam da infância como uma melodia sem letra, paixões pisadas na massa funda do tempo, mas nesses anos entre guerras os sentimentos explicados não interessavam a ninguém. O amor era então criação fulminante do tédio e da inocência, feito do carnal recorte da beleza, magnífico de crueldade. Amei-te de repente, com a luminosa injustiça que me afastou de todos os que me amaram por me serem semelhantes.
(...)
Nunca contei esta história a ninguém. Não me pareceu que tivesse qualquer interesse, as pessoas aborrecem as histórias felizes e têm razão, a felicidade convoca o que há em nós de mais melancólico e solitário.
(...)
Tudo o que há para saber do amor é deslumbrada aceitação. Não se aprende a amar, Camila; não há vontade democrática capaz de espalhar a paixão pelas bolsas de pobreza onde ela não chega, nem fábricas capazes de a produzir em peças, para montagem, construção ou exportação. Não há nada de justo neste sentimento: a justiça, aliás, não passa de um espectáculo de ordenação do mundo, um circo que inventámos para substituir a irracional lei do coração. Não procures explicação para a minha vida, nem a tomes com pena ou escândalo; quando eu ficar tão velha que pareça louça, lê nestes cadernos que eu fui feliz. Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte. O amor, Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele.
(...)
O amor não tem portas que possamos abrir e fechar, nem passagens secretas para um sótão onde possamos fazer férias dele. Toma conta de tudo em nós, envolve-nos como um lençol de tédio, sedoso, infindo. Ninguém fala deste tédio sublime, tão contrário à acção e à eficácia, imóvel inimigo do progresso do mundo. Só no trono do sonho, iluminado e funesto, o amor interessa. Prolongada, a vida torna-se demasiado curta e o amor ganha o ritmo da chuva que bate leve, levemente.
(...)
A vida é uma infindável colecção de testemunhas: precisamos que nos observem, na vitória como no fracasso, precisamos que nos prestem atenção.
(...)
As fotografias provavam-me que a verdade se podia fixar para sempre. Depois o acto de fotografar tornou-se-me uma obsessão, quando a verdade deixou de existir para além da imobilidade das imagens.
(...)
Talvez a vulgarização da beleza acabe por a fazer regressar, em saturação, à subjectividade que inventou a arte. Quanto mais intensa é a fonte de luz, menos suportável é olhá-la e mais sombra provoca, até que um lado seja visível.
(...)
Descobri cedo nas fotografias da minha mãe que a felicidade é uma colecção de instantes suspensos sobre o tempo que só depois de amarelecidos pela ausência se revelam. Nessas fotografias aprendi a não temer o amor e a nostalgia dele, e tornei-me, sem que ela se apercebesse, uma outra espécie de caçadora da luz. No movimento preciso dos dedos longos dela sobre as máquinas de fugir à vida descobri o erotismo como pressentimento de ferida, trabalho incessante de recordação. Trago no meu sangue que é dela esta calada paixão pelos amores mortos, esta determinação de só depois entender o essencial, de amar as distâncias como única proximidade do céu. (...) Foi o desespero que conduziu a minha mãe à fotografia. Uma vez disse-lhe, em tom de desafio, que a fotografia é um inventário de mortos. Uma arte lúgubre. Ela riu-se: «Por isso é que eu gosto dela.» Hoje, parece-me que até o desespero é difícil. Pelo menos é difícil seguir até ao fim de um desespero inteiro.
(...)
Escolhi arquitectura porque me parecia o único modelo de arte onde a ideia de responsabilidade social podia ainda sobreviver sem troça. Uma arte onde o grande imperativo da liberdade se podia ainda exercer com um propósito altruísta, escapando à frívola fantasia combinatória destes anos de contínua reinvenção individual. Mas também a arquitectura ajoelha diante do deus da ostentação.
(...)
Por mais que me esforce, continuo no estado mitológico puro: fé ou desespero. Não sei fazer de conta que vejo o que não vejo.
(...)
As pessoas herdam muitíssimo mais do que à primeira vista se pensa. Valores, formas de sentir e exprimir o sentimento. Não é tão pouco importante como parece. A origem da minha curiosidade pelas formas do universo e do meu amor por todas as formas de arte enraíza-se menos na profissão da minha mãe do que numa educação para a alegria, numa noção do mundo como lugar transformável, cheio de possibilidades. Foi essa a atmosfera da minha infância - e para ela contribuiu não só o sangue da minha mãe (e do meu pai?) como o exemplo da Jenny, e até da nossa velha Rosário, quase analfabeta mas cheia de um genuíno encantamento pelos pequenos pormenores que aquecem a vida."
 
Inês Pedrosa.

agosto 31, 2012

O Livro do Meio.

"O impulso de querer saber da infância, o que é o sinal certo de amor.
(...)
Na impunidade da lealdade da amizade. Matar um irmão diante do Amigo ou vice-versa, sabendo que ele não vai transformar o desabafo numa injúria. Ou denúncia.
(...)
E eu não ia, sendo a repetição o princípio do prazer.
(...)
A casa onde eu nasci ainda lá está no meio da aldeia que foi recauchutada. Quando passo por ela, ela não me conhece e eu faço o mesmo. Respeitamo-nos. Que é um modo de dizer que não há amor e o ódio ficará para mais tarde.
(...)
Como aquela gente cantava e bailava nos intervalos do medo, da humilhação, do desamor, dos gritos, na Casa dos Gritos. Suponho que era a essência da prosa contra a afinal mansuetude da Poesia.
(...)
A timidez perante a excelência do trabalho do outro é uma das bases desta empresa. (...) Na amizade é preciso traduzir. (...) Diz a Agustina que as pessoas que amam os cães são as mais egoístas sobre a terra. E ela gosta de cães. Porque os cães são uns mestres de zelar pelo que é teu, a família, os bens, as emoções profundas, mesmo quando tu te desleixas ou adoeces? Lobo da decência e da perseverança, o cão. Causa amante, contra toda a evidência, um cão.
(...)
Esse gesto de abrir a porta do sagrado era para mim o de maior transgressão. E devia ser o que em mim mais se aproximava do espírito do sobrenatural que me faltava de todo. (...) Talvez eu quisesse abençoar a própria solidão que desde sempre foi a minha companhia absoluta. E assim, pudesse eu perdoar ao próprio Deus uma natureza que ele me atribuiu sem que me fosse dada qualquer satisfação."
Armando Silva Carvalho&Maria Velho da Costa.


julho 14, 2012

Um Fado: Palavras Minhas.

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen.

maio 18, 2012

maio 17, 2012

Carta aos 25.


"Todos somos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera. É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos."
Sousa Falcão,
In: Felizmente há Luar!,
Luís de Sttau Monteiro


O corpo confunde-se com o verde silêncio do espaço, a neblina matinal é sorvida pelo sol numa dança que adoça os cantos aos muros que se lançam aos passos, envolvendo as janelas das casas como uma fina renda branca. Surjo sem destino, estrada fora, o ardor dos olhos dessa hora puxa pelo coração que revela as inscrições mais cavadas na minha geometria. 
O meu irmão acode por entre a paisagem do parque das recordações e a minha carne arrepia-se como se ela própria se tocasse num carinho infinito e descobrisse o peso da comoção de um fado que aconteceu. Desde sempre gostei da luz muda do começo do dia e de abrir os olhos, agarrar-me à vida, um céu e nada mais. Enquanto caminho, apanho-te na ponta dos dedos, surpreendo-te com a caneta sobre uma folha em branco e com um sorriso aberto para o ideal que não sabes se virá, mas ainda assim formulas, numa perpétua tentativa, um mundo volumoso que devolves aos outros como um presente, como sugestão que traz a coincidência entre presente e futuro, as tuas mãos pintam de esperança o espaço que constróis com o outro, pelo outro.
Vou fazer vinte e cinco anos e gosto de os celebrar contigo,R., os momentos sucedem-se e sorrio, sozinho, embalado pela relativa serenidade que conquistei, neste tempo. Desde sempre te disse para não sofreres tanto com os desaires do mundo, para não agarrares o sofrimento pelas costas que é quando ele retribui o gesto e passa a morar dentro de ti. O mistério da vida começou de mãos dadas, eu e tu, impressos num corpo quase idêntico, num diálogo que escapa pelos fios da persiana, semi-acordada na madrugada e ao próprio entendimento dos outros, intrigados transeuntes num cenário de papel. Sempre te inquietaram as paredes que impediam o espaço da alma de ser maior, mais expressivo, e a opacidade da injustiça levou-te cedíssimo para as palavras, arma de reinvenção, de desafio, de chegada até ao outro eu que mora no corpo dos que por nós passam. Sempre te admirei, espreitando, às escondidas, esse milagre da carne grávida de sonhos, de ânimo, de febre.
Procuro o jardim, afogo-me no perfume das flores, a beleza abre-se como um livro, como um terreno onde as explicações deslizam como pétalas soltas sobre o leito da última noite, a terra húmida não mente nunca. Não estás comigo e és tu quem mais me lembra que estou vivo, que me puxas com o teu desajeitado braço de criança para a frente, sempre foste o meu disfarce favorito, preso eu a um sarcasmo de quem já nasce velho e se vinga, impaciente, de um mundo que não mudou como esperado. Sorrio ao lembrar os meus quinze anos, montado nuns Oxford castanhos, que percorreram o mundo a preto e branco em aforismos, preconceitos, raivas, quando o que eu só queria era romper a noite mais depressa, limpar com as mãos a poeira que me apertava o coração. Queria arrumar a casa, sem partir nada, depressa, se faz favor, e viver sem imbróglios que amarrotassem o sentido. Era medo e a sua negação, ritualística, por amor de um lugar seguro, lá, ali, já à frente.
Neste, às vezes, convulso itinerário de corredores e saídas de emergência partilhei tudo contigo: as minhas mortes íntimas, o meu exótico desdém que desbotou quando a chuva da maturidade se abateu sobre a vida, o desespero corajoso, as dores agudas que aprendi a guardar no corpo, algures entre os olhos e a boca, as alegrias e uma gargalhada que tantas vezes fez o vento cair das árvores, com estrondo.  Gosto do desalinho divertido que, de manhã, ao espelho, ensaias para suspender a maldade do dia com esse feixe de Estio que consiste em provocar os outros, obrigando-os a tornarem-se convictos sobreviventes de guerra. Tens o dom da sedução, as mesmas mãos que sempre me ajudaram com uma sisuda cautela, ajudaram muitos que se enrolaram no teu verbo para conhecerem uma inteligência luminosa, quente, carismática.
Rimos muito um do outro e nunca esqueço a tua pancada, debaixo da mesa, quando o meu silêncio, uma espécie de preguiça do outro, um castigo que tem que ver com as pequenas coisas da maldade que já nasceram comigo, começa a alastrar no recinto onde nos encontramos com o espectáculo da vida. "Onde não há ruindade, não há bondade, meu caro", disparo eu. Partilhamos essa devoção pelos antepassados, pelo cheiro a tempo nas divisões de uma casa, da qual nunca se muda, e que nos desobriga de viver a irritante felicidade sincrónica dos que não são de ninguém. Dou contigo, muitas vezes, a ouvir-me falar, com uma cólera que levanta o chão e me complica a vida, e fico mais triste quando me lembro que o mundo não coincide com o tamanho do teu sorriso e da tua bondade e que há quem já não volte, em carne, uma carne que eu amo tanto, aos lugares que preservamos sob um motor que nasceu connosco: o património, essa fileira de escadas onde nos reunimos todos, saudosos, cobertos da melancolia que escorre dos olhos, mergulhados nas fotos que nos ensinam o sofrimento como a disciplina dos que vivem, sendo alguma coisa. É uma guerra aberta, feroz contra a morte que nos leva a cuidar das frágeis linhas azuis onde adormece quem foi talhado de sempre.
 És meu irmão e és aquele que mais sabe de mim, nunca sou tão feliz como quando as coisas simples do quotidiano nos chegam aos dois, lado a lado, sem sono, apegados a crenças, a valores, a medos, como duas crianças teimosas que desafiam o exílio podre dos citadinos. Nesta matéria, coitado, ouves-me sempre a desfiar a mesma cantiga sobre como os grandes homens vieram de lugares mais pequenos do que eles, é preciso ser-se o elástico moral, a primeira palavra dos tempos que se vivem, no lugar onde se vê coisas que não estão lá. As cidades são quase-só monstros de solidão e distância definitiva, de discreta mediocridade onde a anestesia se encontra numa renovada promiscuidade com o novo, o fácil, todos os dias. Nasci duro de esquinas, digo o que penso e faço o que digo, numa brusca tentativa de que os que amo não se percam, flutuando do alto da sua juventude, de costas viradas para a vida, que não é boa a maioria dos dias.
Sempre tu, a abraçares-me perto do limite sem medo que a rebentação nos consuma de mais, completamente. É a definição do amor na sua constante expansão, sei bem que me amas por aquilo que ainda não consegui ser e mais ainda por aquilo que me está interdito perceber. Dizes que vou morrer mais velho do que todos na nossa família, eu rio-me alto, sei bem que não vai ser assim. Só sei que quero voltar a casa, um dia e antes de ti, pela lição de amor mais extraordinária que recebi de quem me faz falta, a cada minuto. Somos criaturas de fidelidade, eu e tu, em que o princípio de participação se consuma num leque privado de seres, em circunstâncias em que importa recuperar a pátria que nos faz levantar e caminhar, estrada fora, logo pela manhã. "Em casa somos pessoas, lá fora somos ideais", dir-te-ia eu, com medo que te desiludas com o carácter tão primário da vida, num passeio pelas ruas que nos viram crescer até à porta onde se inscreve o número catorze. O sangue renasce do sangue.
Já são vinte e cinco, rapaz. Seremos sempre uma e a mesma coisa: um auto-retrato, um jogo de espelhos onde ninguém é de ninguém por obrigação, ou talvez também por isso, no que os imperativos de coração e de misericórdia nos obrigam a fazer para merecermos o dom da vida e encontrarmos o terreno subterrâneo que nos junta uns aos outros. "Coragem, Saúde e Fé", sempre ouvimos aqui em casa, e esta noite, porque não estás aqui, no quarto, vou pedi-lo com mais força, com o espírito cheio, impaciente. À espera que voltes. Sempre. Para que eu possa viver.