junho 28, 2013

Dentro de Ti ver o Mar.

"Quando se cansava dos livros, ou lhe escorregavam das mãos, incapazes de a entusiasmarem, procurava na Internet frases-corrimão às quais se pudesse agarrar. Corrimãos cada vez mais frágeis; as palavras pareciam velhas, secas, exaustas pela tentativa de mudar o mundo. Possuíam uma capacidade inflamável, talvez por nunca serem capazes de absoluto.
(...)
Quando cantava, Rosa sentia que a voz se separava de si e subia os degraus de uma escada de luz. Era ela quem cantava o fado ou o fado que a cantava? Cantando, deixava de ser rouca e de tropeçar nas palavras. O seu sofrimento tornava-se alto como a noite e tão perfeito que encontrava assim uma forma de consolação.
(...)
Só o amor que Gabriel originara nela, um amor escuro, imóvel, feito da matéria da música e das palavras, a empurrara para o interior do seu talento, libertando-a do absurdo da História e da sua contingência
(...)
Praticamente ninguém se afoitava a ir mais longe do que o seu reflexo no espelho. Talvez tivessem sido assim desde o início dos tempos, superficiais, escapando a mergulhar na vida pelo pavor de antecipar a morte. O homem sensato matará metade de si para poder viver durante mais tempo - era este o fundamento de todas as culturas, o preceito central de todas as religiões.
(...)
A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão. Exige o dom da metamorfose e um alto grau de domínio perante a dor. O artista, como o amante, tem de ser capaz de sair da sua própria pele para se colocar dentro da pele do outro. Esvaziando-se na entrega, ganha também imunidade à dor -  há sempre um lado que contempla, de fora, a obra que dentro de si se está gerando. O artista sente-se um surpreendido Deus. O sopro da divindade, ou dessa iluminação súbita que a ela se assemelha, surge no ser humano por intermitências, frágil chama sobre corpos tocados pela vulnerabilidade do conhecimento antecipado da morte. Pode então suceder que o amante se encontre sufocado na rede de um amor desprezado, sem conseguir extrair desse amor mais do que raiva. Ou sofrimento.  
(...)
Gostou tanto da luz das velas, do silêncio ritual, do dedilhar da guitarra e do vinho como da canção propriamente dita. Gerou-se uma festa instantânea entre Rosa e Farimah, uma daquelas coisas de pele que apenas se referem nas relações de amor mas que constituem o lume inicial das grandes amizades; as paixões platónicas possuem também a sua lascívia.
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Gostava de livros; ultrapassara todas as crises da sua vida com um livro debaixo do braço. Na dúvida, lia. Quando alguém o provocava, abria um livro e ignorava a provocação.
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As palavras ficam sempre aquém da dor.
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Todavia, trazia o pai por todo o lado, como agora a mãe, depois de morta.
- O dom da ubiquidade existe. Há pessoas que têm o poder de materializar a sua imagem num sítio onde não estão.
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Na verdade, afeiçoamos o passado ao molde dos medos do presente; os olhares puros não têm data, sobrevivem ao cinismo contemporâneo como à maldade lisa que supomos ser sua avó. E o desejo é uma questão de cheiro e de pele, coisa animal que transcende a elaboração das transcendências. Farimah e Mandela amaram-se como estranhos e iguais, porque são essas as matérias do amor, relâmpago que tudo abre.
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Rosa procurava o pai porque precisava de saber de onde vinha para saber para onde queria ir. (...)
- Queres a segurança mínima do teu espelho original. Ser completamente livre é impossível, pesa demasiado. Eu percebo-te.
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Olhava-me como se nunca acabasse de me ler. Os livros eram o seu ar, é isso que ele tem de melhor e de pior: o que se passa fora das páginas não interessa, não acontece verdadeiramente, especialmente quando acontece em precipício. As palavras protegem-nos da queda dentro dos precipícios dos livros. Desabam-nos e erguem-nos.
(...)
Antes de entrar no palco da Casa de Portugal, Rosa descalçou-se. Precisava de chão. Estava exausta de procurar a terra no corpo dos outros. Não havia terra para lá das fronteiras da pele; cada pessoa era uma país, quando o conseguia ser. Ela sentia-se terra-de-ninguém, excepto quando as luzes se apagavam e a voz se erguia, no silêncio, cantando tudo o que não conseguia dizer nem chorar.
(...)
Não valia a pena acrescentar que o ódio é ainda um tributo do amor, que o bem e o mal se embaraçam de tal modo que a partir de certo ponto não conseguem destrinçar-se.
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-Tudo dói. Cada palavra traz uma dor.
- E cada silêncio também.
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Isso a que chamamos a nossa vida não existe - é um enxame. O que distingue uma vida da outra é o murmúrio do sonho, a distância a que cada um se coloca dele, o modo de brincar aos abismos.
(...)
As histórias não têm princípio nem fim; agarramo-las como náufragos em busca de calor e devolvem-nos uma vida distinta da que julgávamos viver.
(...)
O que é a paixão senão um movimento de fuga ao tédio da existência e um recurso da vaidade?
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A vantagem de se chegar a um ponto de exaustão é que então só sobra a liberdade."
In: Dentro de Ti ver o Mar,
 Inês Pedrosa.

abril 14, 2013

O Cais das Merendas.

"A primeira grande certeza era essa. Que nos filmes os momentos bons só costumavam durar uns minutos.
(...)
Sebastião Guerreiro queria antes um verdadeiro deserto, areia atrás de areia, rocha a seguir a rocha, e onda e onda. Um espaço puramente desabrido que fosse só ausência. Era o que queria.
(...)
Aliás, era sobretudo quando o dia começava a cair para a noite que aquele aperto de garganta  e traqueia a que também se chamava anguish. Anguish, repeat, mister Sebastian. Aquele aperto se instalava na sua vida, oferecendo a quem calhava vê-lo de perto um ar de estátua pousada no dorso da melancolia. Precisamente o que em tempos terá levado a que lhe chamassem de Cagaça. E isso, porque mesmo e sobretudo aos domingos, o escuro começava a descer pelas seis da tarde com um acinte de urgência, como se fosse eclipse, e ficava raivosamente pelas horas inteiras da noite até ao princípio do amanhecer. Então as memórias afogueavam-me os dedos, e chegavam a humedecer-me a vista de homem feito no pleno da maturação, meus amigos.
(...)
Agora sim, a ausência e o passado faziam compreender o significado mais amplo e mais profundo de tudo o que lhe queria dizer naquele dia. Afinal a memória tinha um rabinho peludo por onde se puxava, e atrás vinham os afectos gritantes, ai de nós, ai de nós. E era tudo.
(...)
Como era possível as desgraças virem a acontecer nos sítios amenos, rodeados de jardins e batidos pelo mar todo praia, onde tudo falava de alegria, doces objectos, odores franceses, malas de viagem?
(...)
A partir daquela cena da janela podia Sebastianito Guerreiro duvidar de tudo, mas tinha uma certeza. Que a solidão era uma dor de rosca que subia do intestino à aurícula do coração, e aí alojada, produzia filhotes que esmagavam a vida. Desamparado, no meio da relva, tinha a impressão de que alguma coisa ainda poderia correr tão mal, que o fizesse passar do jardim à porta, da porta à cozinha, da cozinha à descarga e da descarga à lavoira. Como em certos truques de filme em que as figuras entravam de costas nas viaturas e regressavam de arrecuas aos bancos dos passeios públicos donde antes se tinham erguido."
In: O Cais das Merendas, Lídia Jorge.

março 24, 2013

O Vale da Paixão.

"Sim, tinha chegado a hora do silêncio, o século do silêncio, ele estava a iniciar-se com o ruído da fogueira no descampado, rente ao faval raquítico, nas encostas de arneiro onde assentava o quintal da nossa casa. Onde assenta. O silêncio apontava com o dedo o que iria acontecer, apontava o caminho do futuro da terra. O silêncio dizia que o céu seria assim. Um grande espaço sem nada, onde ninguém teria recordação de nada, onde não haveria ninguém para se lembrar de nada. Nada existiria no céu. Nem desejo, nem dor, nem lembrança de qualquer afeição. O céu seria assim. Os regatos congelados, as nuvens ausentes, assemelhando-se tudo a nada. Seria nada o céu. Que bom o céu ser um espaço aniquilado, o trabalho do homem dispensável, o amor em estado puro, parado. Isso seria o céu. Aqui na terra, ainda não. Ainda nos movíamos como animais, ainda traçávamos estradas, ainda tudo estava em movimento, mais que não fosse para tombarmos e então termos existido antes, depois termos existido muito antes, e por fim, já nem termos existido. Sim, assim seria o céu.
(...)
Mas ela tem quinze anos e é já uma mulher velha. Já imaginou cem mil sóis levantarem-se e outros tantos pousarem, e por isso ela sabe que o novelo está feito, e como uma mulher muito idosa de alma entrevada, ela sabe ficar onde está, sabe que é melhor não entrar. A rapariga velha tem quinze anos no Bilhete de Identidade, mas não é verdade. A rapariga velha é uma mulher muito antiga. Tem um século dentro da cabeça ou talvez mais, tem o início d'Ilíada dentro das pálpebras, tem uma infinidade de mortos aqueus e troianos estendidos na sua língua, tem o fim daquele livro na cabeça e sabe que, há milhares de anos, tudo está amalgamado ao longo de uma praia sob nove camadas de areia. Por isso sabe que não vale a pena dar um passo para mudar, a comédia é a mesma. Correr para diante é ir ao encontro do que ficou para trás.
(...)
Sim, era muito bom, mas a natureza humana repudia a bondade exagerada da Natureza, não confia na estabilidade dela nem acredita que seja seu simulacro, e ela achou que, perante aquela regularidade do azul espampanante do céu e do mar, aquela paz furiosa nascida de uma beleza gritante, era preciso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa que rebentasse aquilo que se erguia na sua frente, harmónico e singular, e lembrou-se da noite em que sentira alguma coisa de semelhante, lembrou-se da noite da chuva. Uma mistura de risco minando a beleza, rasgando a beleza suprema, deflagrando-a, e estupidamente, cretinamente, lembrou-se também do revólver Smith.
(...)
Durante a discussão, o que ela quer dizer é que a sua alma, o nicho onde ela se enrola e esconde, onde ela pernoita, onde ela sabe o que sabe e desconhece o que é para desconhecer, esse sempre fora intocável. (...) Essa a sua herança de preservação, a sua coutada real onde só ela caçava, só ela largava os seus cães e apanhava os seus cervos armados.
(...)
Não se pode salvar. Todas as cartas que vier a escrever serão sobre esses objectos mortos que jazem por terra, que estão pendurados das paredes, que estão na rua à chuva, nos buracos luarentos dos palheiros, nas geringonças dos sarilhos dos poços, nos alcatruzes das noras, presa das mortes dos criados e das meninas que nelas se afogam, das avencas que fazem molhos verdes e se confundem com o dorso dos sapos. Está presa do sapo, da salamandra escura de rabo torto, do álamo, do cipreste, do cemitério branco onde os seus antepassados desfizeram os ossos, os seus nomes presos ao solo, antes de desaparecerem nos confins perpendiculares da terra, onde por acaso também está a pedra do Dr. Dalila. Ela está presa ao coração oculto das pedras. Ela nem vai, só regressa.
(...)
Mas sobre o infinitamente insignificante que a sua memória aos pedaços retinha e a passagem do grande resto que era esse infinito oceano exterior deslizando veloz, erguia-se, vigoroso e concreto, o que ela própria amava. Ela sabia desde há muito, que para si mesma, em certas noites de chuva, a história da humanidade era menos importante do que a história do seu pai, por indigno que fosse pensá-lo, quanto mais dizê-lo, ainda que o fizesse em voz baixa. "
In: O Vale da Paixão, Lídia Jorge.

fevereiro 13, 2013

Quando


Avô,
 ainda hoje sinto o coração andar para trás.
Na curva de um caminho só nosso.
 
 
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
 
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
 
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Sophia.

janeiro 21, 2013

O Vale da Paixão.

"Só dispúnhamos de uma única, aquela noite de chuva, e termos a certeza de que estávamos a correr dentro dela, sem a podermos repetir, impedia-nos de a viver.
 (...)
Os anjos sempre teriam tido saudade da noite em que foram animais, e as bestas sempre hão-de sonhar com o dia fulgurante em que terão caçado a criação inteira, na sua efígie de anjos. Não havia solução para essa dupla saudade.
(...)
Mas ela queria dizer que havia objectos que não desapareciam, que apenas deixavam de ser matéria e de ter peso para passarem a ser lembrança. Passavam a ser fluido imaterial, a entrar e a sair do corpo imaterial da pessoa, a incorporar-se na circulação do sangue e nas cavernas da memória, para aí ficarem alojados no fundo da vida, persistindo ao lado dela, e naquela noite, bastaria aproximar o candeeiro a petróleo do corpo da filha, em camisa, e agasalhada pela colcha, para confirmar como esses objectos se encontravam morando dentro da sua cabeça.
(...)
Na noite da chuva, já ela sabia que a vida não pertencia apenas a quem pertencia, mas também a quem a relatava. E que a vida de Walter não era só dele, era de muitos porque em Valmares todos a imaginavam e relatavam o que imaginavam. Walter também existia nos outros e cada um tinha um pedaço dele, um pedaço de que falavam com gosto, como se Walter inteiro lhes pertencesse.
(...)
E a vergonha, na criação de obediência, era um sentimento imprescindível em todos os tempos, principalmente nos diligentes anos trinta.
(...)
Pertencia ao grupo dos que desconhecem que existe um intervalo entre o acto e o ser, um espaço indomável que ninguém alcança e que transforma cada homem na matéria humana.
(...)
Custódio tinha a coragem própria dos que perderam tudo ainda antes de terem começado as batalhas e amava o irmão, aquele que tinha a parte que a si mesmo faltava. Era como se viesse a caminho a outra metade de si. Por ele, Walter voltaria já.
(...)
Herdei a vivência rumorosa do que sucedeu antes do silêncio. Tornei-me herdeira da imagem dum amor, duma paixão envolvida no seu desencontro, e no entanto alta. Essa imagem atravessa o silêncio de muitos anos, dez, vinte, trinta anos, depois, o carro, que sempre se desloca sobre essa película fina, chega e pára, envolto em silêncio. Um aconchegado fantasma. Maria Ema e Walter vêm dentro dele. Embora eu saiba que nunca viajaram sós. Provam-nos os retratos de Kodak."
(...)
Era culpada, responsável, duma responsabilidade mais funda do que a culpa, porque nascida dum estado criado antes de mim mesma, uma condição herdada que me fizera à imagem e semelhança da própria culpa."
In: "O Vale da Paixão, Lídia Jorge.

janeiro 07, 2013

O Prémio.

 
" - Os meios para transformar a realidade são os terramotos, a iniciativa privada, as instituições internacionais, o Estado, o Cinema e a Literatura. Em Espanha, a iniciativa privada no campo da economia, a política e a sociedade civil constituem três vias miseráveis, inoperantes e mentecaptas. Talvez seja por isso que eu me dedico cada vez mais à literatura, não porque ela modifique a realidade mas porque a substitui por outra, a bel-prazer do autor; daí o financiamento do Prémio Lázaro Conesal. (...)
(...)
Já não servimos para comprovar as regras do jogo mas, pelo contrário, servimos como matéria de catarse nos altares purificadores de um sistema triunfalista que quer ir pelo mundo de cabeça muito alta. É muito divertido que o capitalismo, sem inimigos, descubra que os seus inimigos são os capitalistas. Qualquer coisa de parecido com o que se passou com o comunismo."
In: O Prémio, Manuel Vázquez Montalbán.

dezembro 23, 2012

O Último Cais.

 
 
Para a (minha) .
 
"Na verdade, não era de subestimar a influência das velhas criadas. Mais antigas nas casas do que velhas em anos, as velhas criadas - como, noutra escala, as velhas meninas - eram respeitadas pela sua influência, pela confiança de que gozavam, pelo acesso fácil à intimidade das senhoras e à confidência dos meninos chegados à idade dos primeiros sobressaltos amorosos. Tinham vindo do campo - e dizia-se do campo quer se tratasse de uma aldeia piscatória ou de um lugar perdido nas montanhas - quando contavam doze ou treze anos, com o objectivo de cuidar das crianças que começavam a andar e requeriam uma vigilância atenta e paciente. Eram, no mais autêntico sentido da palavra, criadas: tinham crescido ao lado dos meninos da casa, partilhando das suas brincadeiras, aprendido regras de educação e de convívio; sabiam pôr uma mesa com inexcedível rigor e utilizar todos os talheres com acerto e propriedade; haviam participado das alegrias, dos lutos e das viagens da família, acompanhado os meninos ao colégio, confeccionado os preciosos doces conventuais que eram tradição das casas madeirenses, rejubilado com a boa sorte dos senhores ou chorado com a sua má fortuna. E quando, porventura, voltavam ao campo para o funeral dum avô ou para a cabeceira da mãe doente, cedo se saciava a saudade da família, dos vizinhos e do lugar e logo lhes apetecia o regresso à cidade, ao quartinho do sótão, à tagarelice das companheiras, à autoridade sobre os trabalhos domésticos, aos desabafos das senhoras, aos bilhetinhos das meninas e dos seus namoros.
Algumas das velhas criadas casavam, trocavam o lugar de mando e confiança pela oportunidade de terem a sua própria casa quando ainda dispunham de tempo para gerar meia dúzia de filhos. Recebiam a bênção e as prendas dos senhores, transformavam-se em costureiras ou mulheres-a-dias, continuavam a frequentar as casas e a partilhar da vida das famílias. Outras mantinham-se solteiras, perenemente, eternamente à margem da vida, ouvindo contar experiências e desastres, venturas e decepções, guardando tudo tão vivo e tão forte que, com o decorrer dos anos, chegavam a pensar que haviam protagonizado, dum certo modo indirecto mas não menos marcante, cada um dos eventos. (...)"
In: O Último Cais, Helena Marques.