setembro 01, 2016

Barroco Tropical.


"Sou uma estrela, dizem. E acho que é verdade: sou uma estrela, sim -ardo! Depois virá uma explosão e morrerei. Na minha morte arrastarei comigo, para dentro do meu próprio abismo, tudo o que me rodeia, inclusive a luz. A luz inteira. Por enquanto sou uma estrela. Acontece-me, quando estou quase a adormecer, naquele território de fronteira em que ainda sabemos quem somos, ou julgamos saber, mas em que já não conseguimos abrir os olhos, acontece-me sonhar que voltei a ser uma pessoa, e torno a experimentar sentimentos e a rir e a chorar. Sonho que amo, e que sou amada. Sinto o assombro e a alegria dos amantes correspondidos. 
(...)
Acho que o amor é o inverso da morte. 
(...)
Não tenho passado. Pode procurar à vontade, senhor jornalista, não encontrará nada. Nem uma cidade natal, nem amigos de infância. Nada! Nada de nada! Nasço nos palcos, noite sim, noite não, e às vezes noite sim, noite sim, e no final morro nos palcos. Não existo fora dos palcos. Não existo nas noites em que não canto. 
(...)
Fui feliz com ela e suspeito que nunca a conheci. Teria sido feliz se realmente a tivesse conhecido? Penso nisso o tempo todo. 
(...)
Quando a minha mulher me perguntou o que se passava fui sincero.Há muitos anos que não havia entre nós nada que se parecesse com sinceridade. Sinceridade é quase amor. 
(...)
- O Ramiro não gosta de falar com estranhos. 
- Compreendo. O problema é que para ele todos nós somos estranhos, certo? Todas as pessoas...
- E o senhor não concorda? Somos todos estranhos uns em relação aos outros. Podemos usar as mesmas palavras mas não falamos a mesma língua. 
(...)
Luanda corre a toda a velocidade em direcção ao Grande Desastre. Oito milhões de pessoas aos uivos, aos choros e às gargalhadas. Uma festa. Uma tragédia. Tudo o que pode acontecer acontece aqui. O que não pode acontecer, acontece igualmente. Estamos no século XXI. Estamos lá muito atrás. Estamos mergulhados na luz. Estamos afundados no obscurantismo e na miséria. Somos incrivelmente ricos. Produzimos metade dos diamantes vendidos no mundo. Temos ouro, cobre, minerais raros, florestas por explorar e água que não acaba mais. Morremos de fome, de malária, de cólera, de diarreia, de doença do sono, de vírus vindos do futuro, uns, e outros de um passado sem nome. 
(...)
Voltando ao princípio. Esta é uma das vantagens da literatura em relação à vida: podemos sempre voltar ao princípio. 
(...)
Sabe, sou uma colecção de personalidades - mas não somos todos?
(...)
Em Portugal já quase não há labregos. As aldeias foram abandonadas. Os sotaques regionais extinguem-se lentamente. Suponho que O Orgulho Grego seja uma das últimas tascas portuguesas no mundo. Em Lisboa desapareceram todas, como resultado da lamentável extinção dos labregos, é claro, mas sobretudo devido à insensibilidade dos legisladores europeus, que para protegerem a saúde dos consumidores não hesitam em retirar, literalmente, o sal à vida. Hoje os europeus têm muita saúde, mas sentem-se mortos. São mortos muitíssimo saudáveis. Nós, pelo contrário, padecemos dos mais diversos males, e morremos muito, morremos constantemente, mas vamo-nos embora com a barriga cheia. Saber viver é saber morrer. 
(...)
Habituei-me a pensar no meu marido não como quem pensa numa pessoa mas como quem pensa num lugar. Os lugares são estáveis. Estão lá sempre. Lulu era a minha cidade natal, a casa dos meus pais, as paisagens da minha infância, um sólido cais de pedra, um porto de abrigo capaz de me proteger nas tempestades. 
(...)
Sou aparentada com tudo quanto escurece. 
Uma estrela, dizes?
Pode ser. As noites estão cheias de estrelas e no entanto vê como são escuras. O brilho das estrelas não ilumina caminho algum. 
(...)
Devíamos poder morrer temporariamente, como quem vai de férias. Não, não como quem dorme! Como quem dorme, não! Não digas disparates. Dormir é viver sem a opressão da consciência, e às vezes nem isso. Em sonhos também sofremos com remorsos. Também temos medo de morrer. Também adormecemos. Também morremos. Eu queria morrer de verdade, deixar de existir, de forma a que durante algum tempo tudo fosse nada. Nada em mim e à minha volta. Eu flutuando no infinito nada. 
(...)
Julgas que não o amo, ao escritor?
Amo-o tanto que não o quero infeliz comigo. Quero salvá-lo de mim. Sou como um mar que rejeitasse os seus afogados. (...) Os homens repetem-se no amor. Repetem-se em tudo. São animais monótonos e estúpidos. 
(...)
Nas igrejas, ao menos aqui em Angola, é comum as pessoas dirigirem-se em voz alta às imagens de Cristo, da Virgem Maria, de qualquer santo, rogando, implorando ou mesmo censurando-Os. Ninguém acha isso estranho. As imagens estão lá, afinal de contas, como uma espécie de telefone público para o além. Um telefone público só com bocal, sem auricular. As pessoas podem interrogar as imagens, mas não têm direito a escutar as respostas. Quem se dirige a Deus é devoto; quem afirma ouvir a voz de Deus é maluco. Eu não sou nem devota nem maluca. Falo contigo para fingir que não estou a falar comigo. 
O vazio, tu sabes. O vazio e                         O que vem a seguir não tem nome. 
(...)
- O evidente mente - repete às gargalhadas. Luca gosta de jogos de palavras. Nem sempre acerta. - Se queres encontrar a luz procura-a na escuridão. 
(...)
- Li os seus livros. Há anjos em todos eles.
. Disparate!
- Sim, há anjos em todos eles. Não estou a dizer que você acredita em anjos. Estou a dizer que você gostaria de acreditar. Simpatiza com a ideia. Eu também não acredito, claro. Mas interesso-me por tudo em que não consigo acreditar. 
(...)
Disse-me Deus:
A vida começa com lágrimas.
A vida termina com lágrimas. 
(...)
O futuro é a solidão por estrear. 
(...)
Era como um sonho, mas sem a escuridão dos sonhos. Todos os sonhos são escuros.  Mesmo quando têm luz, são escuros nas margens, não achas? Os meus são. 
(...)
Escrevo para iluminar os corredores da minha alma. (...) Além disso, é verdade: conheço bem a luz que dorme em certas palavras, a noite que se esconde noutras. Há metáforas que deflagram como granadas, estrofes capazes de abrir clarões à nossa frente. Já me aconteceu ter cantado os mesmos versos centenas de vezes sem os compreender. Então, de repente, num palco qualquer, o Bozar, em Bruxelas, o Finlândia Hall, em Helsínquia, o Koninklijk Theater Carré, em Amesterdão, num palco qualquer, aquela mesma canção acende-se e revela-se: abre-se, como uma porta, para um mundo de cuja existência nem suspeitava. Quando me sinto perdida sento-me e escrevo. Quando estou irremediavelmente perdida, canto.
Canto para me salvar. 
(...)
- Perguntar é pensar, menina, e quem pensa acaba sempre a contestar. Ninguém quer pensadores neste país. 
(...)
Aborrece-me que Deus não permita viver um acontecimento tão importante quanto a morte senão uma única vez -  e ainda por cima sem direito a ensaios. 
(...)
Na dor voltamos a ser crianças. 
(...)
Kianda era uma alma indomável  e talvez por isso nos fascinasse tanto, a nós, almas domésticas e domesticadas. O mesmo fascínio, o mesmo medo que os povos sedentários sentem em relação aos nómadas. 
(...)
- Tenho de conseguir compreender. Acho que só serei capaz de perdoar o que ela nos fez depois de conseguir compreender. (...)
- Você tem razão - disse-lhe. - Perdoar é compreender. 
(...)
Eu sabia que estava a sonhar. Sabia que o cão não era autêntico. Contudo, sentia medo. O cão talvez fosse produto da minha fantasia, mas o meu medo era real. Enquanto o sonho avançava eu pensava nisto: em como os sentimentos são sempre autênticos, mesmo quando tudo o resto é inteiramente falso. 
Nunca saberemos se existe quem amamos. 
Mas sabemos que o amor existe. 
(...)
Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria, pois, tende a ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo-de-artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no momento em que somos felizes. Eu fui feliz - nos meus últimos dias - em clarões de assombro. Relâmpagos de lucidez extrema, de absoluta comunhão com os meus músicos, o público, as palavras que saíam dos meus lábios."

junho 22, 2016

Por este Mundo Acima.

"Estou em silêncio há tanto tempo, que não sei como quebrar a barreira entre mim e os outros.
(...)
Sim, a sedução é um jogo, não de verdade ou mentira, mas de ataque e defesa, por esta ordem. E de escândalo. Forçosamente é preciso escandalizar, puxar a realidade das coisas até um limite qualquer e, depois, ver como tudo corre, como é que se aguentam. 
(...)
Uma coisa é verdade, apesar das diferenças, éramos uns dos outros: Jaime na arte, Lourenço na política, escrevendo nos jornais e nos blogues, Sofia salvando o mundo. Um dos sentimentos que me animavam era a união entre os quatro. Pertencíamos uns aos outros. Sem qualquer dogma. Podíamos conversar sobre tudo e disparatar como as crianças. Até a maldade era desculpável. Possuíamos um registo que nos tornava diferentes. Gostava dessa ideia, de sermos o tudo e o nada uns dos outros, cruzando a vida de outras pessoas, mas regressando àquela base de afecto e confiança. Não falávamos sobre a nossa relação; sabíamos que era distinta e que, no meio por onde circulávamos, era tema de conversa. Não nos importávamos.
(...)
Eram dados invulgarmente exóticos para a maioria. Eu gostava de os coleccionar. Dava-me gozo saber coisas estranhas. Era esse tipo de homem: coleccionador de realidades que, em sociedade, me serviam para arrancar uma gargalhada, um apoio espontâneo, uma dose reforçada de superioridade intelectual.
(...)
Interrompia leituras para fazer releituras. Sou um grande adepto das segundas e terceiras leituras. Uma leitura aos vinte anos não é a mesma que aos trinta anos. A culpa é da personagem que é demasiado rica ou do leitor que se transfigura no tempo? A pergunta serviu de mote a tantos jantares. 
(...)
O azul estava mais perto da bondade. 
(...) 
Ser doente é ter um refúgio. 
(...)
A beleza, como a arte, era contemplativa. Perante uma mulher bonita, eu nunca esperei nada. Bastava-me olhar. Quando se dava o acaso de encontrar uma mulher assim e inteligente, rejubilava. A beleza, não sendo essencial, é um grande carinho que a natureza nos proporciona. Eu não era imune a esta comoção. 
(...)
É fundamental deixar de pensar. (...) Desde o início que há um pacto. As palavras podem ser bem-vindas, mas podem, com a mesma força, ser desnecessárias. Uma das características de Pedro, venho a perceber com o tempo, é a economia de gestos e palavras. Nunca mais do que o essencial para concretizar o seu próximo passo enquanto sobrevivente. 
(...)
Tudo é um mistério por ora e confesso-te que não sei nada. Nem de mim, nem dos outros. Se leres isto, um dia, Sofia, quero que saibas que te amo. Sempre te amei. Mais do que qualquer outra. mais do que a ninguém. Não te rias ao ler estas linhas, tem um pouco de compaixão. Controla os teus impulsos, sim? A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma. Sentes isso? Eu sinto. Quando te conheci, percebi-te de imediato. Acho que ficámos transparentes: um a ver a essência do outro. E depois segue-se a vida. 
(...)
Todos os truques que pregámos à vida viraram-se contra nós. Numa ironia qualquer que não entendo, eu - o mais fraco de todos vocês - fiquei no silêncio da casa dos meus pais a pensar nestas coisas. E escrevo, escrevo para não perder a razão. Ou talvez seja o contrário. (...) O escritor escreve para si, dizia eu aos meus autores. É uma mentira, sempre o soube. O escritor escreve como forma de exibicionismo. É único quando se agiganta no palco da escrita e vislumbra chegar à grande interrogação. Todos os bons romances são interrogações, não achas? Sobre o destino, sobre a fatalidade, a sorte e o azar. São a consciência do tempo no momento em que o tempo decorre, como uma veia a pulsar. Os romancistas são exactamente isso: medidores do tempo, das ideias, dos receios e expectativas do seu tempo. São contemporâneos, mesmo que alheados dos outros, porque não têm qualquer escudo protector, são comidos e mastigados pela vida e colocam tudo por escrito.
(...)
Estou tão sozinha que oiço o meu corpo a envelhecer.
(...)
Às vezes, a dor é tão grande, que o coração adormece. O coração deixa de bombear sangue, deixa de ser central no organismo, opta por se calar, passa a ser comandado pela dor. 
(...)
Os livros têm música lá dentro, quanto mais os lemos mais entramos neles, colam-se à nossa pele e fazem da voz o que querem. (...) Os livros têm essa magia, fazem viver as coisas. O leitor percorre as mesma estradas que ele seguiu, encara realidades, redescobre um sentido de humanidade. 
(...)
Não era feliz, pois não?
Não, Pedro, nunca foi feliz. Ela dizia que não possuía essa vocação. Eu acredito que Sofia se limitou a deixar-se arrastar, com uma eficácia tremenda, para o lado mais triste da vida. "
in Por este Mundo Acima, Patrícia Reis. 

abril 12, 2016

Quarto-Escuro.


Querida Avó,

O medo ainda mora a duas ruas de tua casa, cantando dentro de mim como um vento nocturno, apressado, cheio de emoção. É sempre difícil amar quando sabemos que a intensidade de uma ausência pode ser tão avassaladora como a intensidade de um encontro. Nos últimos tempos sinto a infância como uma espécie de assombração doce que me faz chorar pelas coisas simples que tinha como adquiridas: um céu azul, uma casa imensa de calor, uns braços que não acabavam nunca. Choro como um velho que não se habituou ainda à ideia que os sentimentos intensos o podem enlouquecer, como uma pessoa que só sabe amar poucos, mas a fundo perdido, entrando no outro como se cai numa rede sem pensar no acontecer que virá daí a segundos. 
Foram quase quarenta dias em que a vida pesou no peito como se viver apesar de ti fosse o maior insulto que se pode cometer ao amor, a um compromisso sem sucessor. Fui-te ver várias vezes ao hospital e, de cada vez que te encontrava, queria acreditar na força consoladora das palavras, numa qualquer energia que combatesse violentamente a doença e te trouxesse de volta a tua casa, de volta a nós. Voltei a usar as noites como em pequeno: as horas em branco serviram para lançar para o céu gestos de súplica, falei sem parar com as mãos agarradas às do Avô, com os olhos postos em qualquer coisa que te fosse buscar ao fundo de ti mesma, não importa o nome desse ritual. Os olhos ardiam num pânico prisional, era preciso pensar e pedir segurança e ignorar a provocação da morte no horizonte. 
Não sabes isto, mas nesses dias de luta não fui capaz de entrar em tua casa, subir as escadas e simplesmente deixar-me ficar. Cada canto da casa, cada objecto, cada retrato mostrariam a fragilidade da vida, a falta de liberdade que a morte de quem é, junto a nós, dentro de nós, por nós sempre traz. É esse o problema do desespero, podemos encontrar rituais que nos deixem mais leves, mais aliviados, mas nunca há nada que o ultrapasse, que o apague, segue em nós como um sangue, escuro, profundo, gelado. Como as palavras ficam sempre aquém do que nos une, voltei ao silêncio. Passei horas pensando em como a ordem das coisas seguia destruída e em como as pessoas são o esteio da nossa própria existência. Não sei viver sem a voz, o cheiro, o toque dos meus velhos que trago dentro de mim imunes à erosão, resgatados à morte, sofro da doença da fidelidade, de só encontrar um sentido para os dias com a presença de quem amo para lá das fronteiras da racionalidade. O Amor é uma homenagem contra a indiferença. 
Escrevo e na minha cabeça a palavra Avó repete-se a si mesma, sem controlo, dezenas, centenas de vezes, como se eu quisesse desenhar o teu corpo, o azul enorme dos teus olhos, a beleza das tuas mãos na tela do mundo e da vida, um recomeço. De cada vez que olhas para mim, Avó, a eternidade acontece dentro do caminho que fazemos juntos, há quase vinte e nove anos. Peço sempre, quando me deito, a quem amo, que apareça, que se sente no muro dos meus sonhos e que me ajude a acreditar. A continuar. Sou um mar de amores impossíveis, de partidas, de murmúrios e preciso de me manter à tona. Avó, enquanto sofrias no quarto do hospital, pedia para morrer um pouco para te deixar respirar, para te manteres agarrada à bóia que sempre foste para todos nós, toda uma vida. Nunca me importei de viver menos anos feliz do que muitos anos sem ninguém, como uma estátua presa no centro de uma cidade qualquer. Chamo os mortos constantemente, acaricio os retratos a sépia como um vício de querer aproximar o bem e afastar o mal. Nada fica resolvido e fechado com a morte. 
Querida Avó, continuo apaixonado por ti e quero-te sempre junto de mim. Quando o coração abana descompassadamente por ti são as mãos da minha vida a abraçar a tua para que as duas façam sentido e componham o texto que segue tremido. Amei-te mesmo antes de saber falar, escrever ou andar de encontro a ti. Quando te visitava naquele quarto cinzento mentia ao teu corpo para que ele se deixasse seduzir pela vida uma e outra vez, para que o teu coração pudesse viver fora dos muros de pedra onde o Avô já está há dezasseis anos. A mentira é uma ferramenta do amor, irmã maior da esperança, tão necessária como o ar para permanecer. É preciso que nos percamos para nos encontrarmos e, por entre corredores, gemidos, rostos apavorados, tentei sempre que o milagre da imortalidade acontecesse mais um dia, mais uma vez. 
O medo ainda mora dentro de mim. Sem atenuantes. E ando meio desalentado. Mas, sem saberes, subi as escadas de tua casa quando já dormias no teu quarto. Sentei-me e chorei. Deixei a minha cabeça descer até ao coração e desaguar nele. Nesse momento soube que entre mim e ti ainda há o prazer da imortalidade feito de palavras, sons, cheiros, pedaços de gente e de lugares mágicos. Soube, enquanto dormias, que ambos buscamos a sobrevivência da melhor forma que sabemos e que nos agarramos ao mesmo antídoto que é a memória da existência do(s) outro(s). É como se no bolso de cada um de nós estivesse um mesmo pedaço de papel dobrado, velhinho, com a morada que só se lerá, um dia, quando abandonarmos a máquina da multidão e voarmos, alto, para lá dos olhos tristes que ainda vejo no espelho. Usei as palavras para te reerguer e usei o silêncio para te acompanhar nessas outras palavras negras que ficaram, felizmente, fora das margens desta história e que, por isso, não contam nada. Avó, para onde fores, eu vou. Sempre. Sou uma pessoa que só sabe amar poucos, mas a fundo perdido, entrando no outro como se cai numa rede sem pensar no acontecer que virá daí a segundos, sabes? É a paisagem que mais aprecio, o horizonte onde cabemos todos juntos como uma família deve permanecer. 
Amo-te mais, hoje, Avó, e sei que sabes disso, da força de um amor que sobrevive, mesmo num quarto(escuro) de hospital. Somos visceralmente um do outro e encontramos na companhia um do outro qualquer coisa sem nome, sem limites, sem paredes de pedra. Para os dias negros que venham temos o papel no bolso e uma morada para onde seguir. Juntos. Num silêncio ritual. 

setembro 24, 2014

Falo de Ti.

Avô,

O dia escorre para o seu fim como um caminho há muito conhecido e desde sempre percorrido, em silêncio. O céu incendeia-se numa morte dramática, num fogo que desagua na noite onde os corpos se despem, se enfrentam, se escutam. É nestes momentos, no fim das coisas, no fim da linha branca da realidade que procuro o som para aquilo que hás-de ser, não estando aqui, do meu lado. Desde que foste que a memória joga com o coração uma espécie de sequestro do porvir, um contágio das promessas pelas palavras que escorrem dentro da saudade com que os meus olhos inundam as horas que ficaram depois de ti.
Desde muito pequenos, nos dias quentes de Verão na Meia Praia, esse deserto amplo onde a liberdade sopra até ao fundo de cada um de nós, eu e o meu irmão caminhamos juntos, unidos por gestos, palavras, dúvidas e abraços que o tempo não dissolve à procura do que não tem nome mas que dói e pesa, uma espécie de impossibilidade que se pressente mas não se aceita, uma paisagem que ainda não se vê mas fura os olhos do amor como uma noite sem estrelas. Lembro com saudade essa vida onde o despontar da melancolia era ainda suportável, onde as perdas se conjugavam com um tempo longínquo, do outro lado do mar, do outro lado da infância. Marcávamos o chão com passos que valiam como questões, ambos sabíamos que era a morte dos nossos que nos desenhava a pressa de amarmos, dizermos, corrermos para o colo do Avós, da Gó, dessas pessoas que cultivaram os baldios do nosso coração como anjos de uma carne quente, forte, incondicionalmente cosida com a nossa para todos os mistérios do caminho.
Meu Avô, a verdade é que, hoje, depois de não ter consigo evitar a tua partida, quando, à noite, pedia a um Deus que não conhecia bem, que descontasse na minha estrada os quilómetros que sem ti seriam um excesso de realidade a pender de um corpo dorido, exausto, ainda me acompanhas em tudo e em todas as horas de uma estrada mais sinuosa, outonal, espinhosa. Não sei viver com o teu desaparecimento e a devastação do passado não acontece tão imediatamente porque na ardósia da escola eu escrevo o teu nome, o nome dos Bisavós, a tua idade, datas em que te sabia seres do tempo de cá, vasculho a casa muda, abro armários, remexo nos cantos de todas as gavetas da memória para preservar o perfume do teu abraço, a humanidade da tua acção, os traços da tua velhice que sempre me comoveram.
Quando converso com a Avó, quando enlaçamos as mãos e os sentimentos acusam uma filiação evidente, percebo com ela que a geometria da vida breve nada tem a ver com a vastidão que o amor pode pintar numa janela, a casa de pedra onde tu também já foste criança, infinita como a esperança que peço como remédio para este quadro vazio que se pendura na mesma parede onde ontem tinha sete, oito, nove anos e as composições falavam todas de umas escadas do tamanho da imaginação, onde só se somava e multiplicava os contornos do habitual, um amor imune aos medos que se tornam em abismos profundos. Chego sempre a ti, é de ti que parto quando a luz que nos sonhos me mostras coincide com a manhã lá fora, invisível a tua presença nos meus passos, sentida como um batimento de dois corações que se tornam um por absoluta necessidade um do outro. Sei que a Avó sente o lume dos meus olhos afogados nos retratos, nos instantes que roubámos à morte e que, em silêncio, choramos ainda hoje o não saber roer amarras e deixar-te partir, dissipando-te no verde dos teus campos, somos ambos teimosos e queremos ser o asilo que acolhe a tua morte, os teus quase noventa e cinco anos de vida, queremos ser o teu coração sepultado, o lugar onde descansas, o escuro onde as flores não precisem de chorar por nós.
Nasci amando o que não conheci senão pelo que sinto desse mundo anterior a mim e que em mim se revela cada vez mais, num espelho de ressonâncias e de ressurgimento. Sou o que és em mim e o que não podes ser mais, como um dever de expressão que se cumpre por um aluno sentimentalmente motivado, apaixonado pelas gentes de vento e mar que reencontro no areal das praias que sempre fizeram parte do meu caminho de procura. Ouço o mar, vejo marcas de passos à minha frente, coloco os meus pés na pele molhada da areia que cedeu porque tu passaste. Tu, Avô, tu, irmão, um de vocês disse-me qual era o caminho onde todos nos encontrámos, um postal de uma morada feliz. Hoje encontro-me sozinho nos contornos de um corpo onde mora muita gente feita da mesma espuma que a fuga do mar sempre desenha na face do mundo.
 Avô, nada do que é teu te vou devolver nesta vida, não vou ceder ao lugar onde os mortos caem por terra, encarcerados num esquecimento imerecido. O teu lugar é no meu coração, vivo, misterioso, curioso e não num soalho triste de solidão campal. Peço-te, quando falo contigo, que não te esqueças de nós, que esperes por nós na esquina da tua rua, olhando a janela do meu quarto, na madrugada em que te sinto por perto, num envelhecimento ao contrário, num chamamento que um dia se cumprirá. Rezo todos os dias para que a morte me leve, ouvindo fado, e que a letra desse destino se acerte com o que te calhou. Quero muito voltar a ver-te, aí, ali, onde se escondem as cinco da tarde de uma infância em que me pagavas pela mão e me bordavas um sorriso no rosto, uns olhos iguais aos teus para eu saber sempre ver-te e ver-me quando me perco no vento do Verão que sempre me confundiu. Procuro-te em cada frase, em cada livro que abro, em cada esquina onde julgo poder decifrar a linguagem que a morte escreveu na minha vida, o trabalho durará motivado por um amor definitivo, impositivo, convoco-te para as ruas do meu destino fazendo de tudo para que um dia, quando eu morrer, me venhas com o teu carinho dizer que a nossa família não se perdeu no labirinto do esquecimento, que os meus mortos olham por mim e têm saudades, um nome onde cabe tudo o que corre como um rio, espelho de um mistério maior.
Espera por mim. O mundo onde vivemos é redondo e eu caminho sempre, seguindo os passos que ao ouvido me dizes serem o destino dos que nas sombras pesadas pregadas no chão descobrem ainda o espelho de um corpo que dança no sangue do amor.   

outubro 08, 2013

Onde a Noite se Acaba.

"Gostava de Londres, gostava da neblina. Fora duma e doutra, ter-se-ia sentido abandonado e nu como um primitivo, grotesco e risível. A neblina (assim, andando, reflectia o professor) esbate e amacia os contornos das coisas e dos seres, lubrifica os convívios, torna mais íntima e segura a personalidade, estabelece entre os homens uma translúcida barreira, uma distância, um véu, que os faz mais livres, mais senhores de si. É a condição indispensável da privacy. (...)
O homem londrino (meditava sempre o erudito, num crescendo de pensamento criador) vive numa atmosfera quase imaterial, propício ao culto fecundo do Eu, à meditação, à intimidade subjectiva. É-nos preciso ir ao clube, ao teatro, ao pub, ao restaurante, para reatar os laços do convívio material, para refazer todos os dias a noção vertiginosa da existência dos outros... Sim, precisamos do whist, do meeting, da igreja, do conforto, do golf, e até mesmo do whiskey, para sabermos que existimos socialmente, que fazemos parte dum mundo de indivíduos, de homens loiros, fleumáticos, precisos! Disso e do Times. Ah, o Times! (...)
«A civilização - costumava ele dizer aos seus alunos impassíveis - é a filha dilecta dos climas frios, e da Inglaterra em particular. As altas temperaturas e o ar seco enervam, ou excitam demasiado, fazem murchar as flores da criação e da cultura...»
Preparava havia bons vinte anos um minucioso ensaio sobre «As relações da temperatura e do grau higrométrico do ar com a marcha da Civilização» (ou coisa assim), mas faltavam-lhe, como é de ver, certos dados essenciais sobre as condições atmosféricas do Egipto sob a vigésima segunda dinastia, e outros momentos de importância histórica igualmente relativa, se os compararmos ao esplendor da era vitoriana."
In: Onde a Noite se Acaba, José Rodrigues Miguéis

julho 07, 2013

A Eternidade e o Desejo.

"O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor -  por isso permanecem quando as cores desmaiam.
(...)
A voz de um homem desbravando a fé nas palavras, fazendo de cada palavra uma catapulta, um forno, um berço, um gesto de reconstrução do mundo. Um céu partido ao meio no meio da tarde, um céu despenhado, pedra a pedra, da voz deste homem.
(...)
É verdade que o amor cega, paralisa, entorpece - mas apenas para tudo o que não é o amor. E tudo o que não é o amor é o mal do mundo. Não vale nada.
(...)
Vieira não precisava de nada nem de ninguém. No fundo, acho que lhe bastava a consciência de que tinha Deus dentro de si -  ou a eternidade, ou o conhecimento, como preferires.
(...)
Mas eu vejo tão pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebastião. A eternidade que somos conduzidos a aspirar é a da juventude - o lugar mais rápido, inseguro e variável da existência humana. O lugar do querer ser. Não vês o contra-senso que isto representa? A violência? A prisão?
(...)
- Utilizavam a arte como uma escada de acesso ao céu. O sucesso era então uma medida celeste. (...) Alguém acrescenta que a arte seria então a expressão máxima do amor, e nisto uma voz potente declara: «Definir-se e arder, isso é amar.»
(...)
(O calor: carícia dos mortos que muito - e quase sempre mal - amámos. Mortos que não soubemos ainda arrefecer, e ardem lentamente à superfície da nossa pele. Ardemos com eles, as palavras somem-se no fogo da pele, papel que torna espessa a tinta do coração. Não há amor imediato: o desejo transtorna a verdade, cai como chuva sobre o sangue, dissolvendo-lhe o tempo de onde vem e o espaço para onde vai. Não se consegue amar completamente senão na memória, Sebastião. As histórias que sonhámos para as pessoas amadas flutuam na neblina dos dias muito quentes, como mentiras leves tocadas pelo peso da verdade. Espuma do mar desfeita ao toque dos dedos. Não te canses a inventar-me no desejo do teu corpo, Sebastião, que o que em mim crês amar não é mais do que a memória das lágrimas, das tuas lágrimas, feitas de uma luz distinta das minhas.)
(...)
O prazer que se pode dar acalma as tempestades humanas; mas o prazer que se recebe e guarda nunca mais nos deixa serenar.
(...)
Peço que me injectem imagens em catadupa, as igrejas e ruas e estátuas em que os que têm o sentido da visão se distraem das visões que os dominam. Mas não posso escolher. A cegueira obriga-me a ver o que é meu.
(...)
A princípio faltavam-me as palavras. Nunca encontrava as palavras certas, por isso experimentava escrever poemas: acreditava que a arquitectura do verso geraria as palavras de que eu precisava, palavras com um mecanismo de relógio tão poderoso que estancasse o tempo. Essas palavras capazes de boiar sobre esse mar de morte que é o tempo, encontrei-as nos teus textos, Vieira - cordas de frases resistindo às intempéries e a si mesmas. Assim desisti dos rituais da poesia, fiz profissão de estudar as palavras do outros -  mas ralhavas-me sempre, António Vieira, puxavas-me as orelhas, não sei se pela minha desistência, se pela minha insistência nas palavras dos outros.
(...)
A coragem é o ponto de exclamação da vaidade, à qual a compaixão faz de vírgula  - os pecados de que desististe por amor a esse Deus que inventaste para não morrer, sublimaste-os a todos na vaidade. A luxúria, a cobiça, até a vontade de poder , a que hoje chamamos sucesso, tudo desfizeste e engoliste no caldeirão frugal da vaidade.
(...)
Digo-te que onde há seres humanos, há prisões.
(...)
Querido amigo; perdoa se te usei como um mapa para encontrar o meu caminho - mas não são isso os amigos?
(...)
- Como se pode falar de alma sem falar de Deus? - pergunta-me Emanuel, enquanto me acaricia e eu canto ao seu ouvido aquela canção em que Caetano define a pele como a parte mais clara da alma. De tudo se pode falar sem falar de Deus. Como de tudo se pode falar enquanto se fala de Deus. Foi o que fez António Vieira.
(...)
Como tu, aprecio esse privilégio supremo do viajante que é o de participar da banalidade quotidiana sem lhe sentir o peso - porque não é sua.
(...)
Sebastião, o horrível desistiu de ser rival do belo, deixou de ser o antibelo. Ambos se fundem, ambos se fundiram sempre - mesmo quando não o queremos ver: são um só ser hermafrodita. Em todo o horrível há um grito pelo belo. No belo o único grito que se ouve - e não é grito, é um lamento em surdina - é pela morte: a morte que o apagará em definitivo, a morte que é a melancolia da sua ausência. O desaparecimento da ideia do belo resulta da sua politização: a beleza em si foi desprezada em favor de uma beleza ética, que muitas vezes se impõe através das imagens contrastantes do horrível - ou mesmo, nos seus momentos mais intensos, de uma beleza épica, que ressuscita sempre nos lugares e momentos de tragédia. Esta beleza épica relaciona-se com o sublime, beleza extrema que, na sua extrema intensidade, se torna dor, vazio, o terrível emudecido. O horrível pelo horrível torna-se infantil, habitual, insignificante, do mesmo modo que o belo pelo belo se torna frustrante.
(...)
Precisa mesmo de se despedir desse Sebastião? Para quê carregar essa nossa curta existência com despedidas? Ninguém sabe despedir-se de nada - não inventamos a eternidade para evitarmos as despedidas?
(...)
Talvez um dia morras, e eu não saiba -  e isso significa apenas que te continuarei amando vivo, e que viverás em mim enquanto eu viver. É essa a imortalidade em que acredito. (...)"
In: A Eternidade e o Desejo,
Inês Pedrosa.

junho 28, 2013

Dentro de Ti ver o Mar.

"Quando se cansava dos livros, ou lhe escorregavam das mãos, incapazes de a entusiasmarem, procurava na Internet frases-corrimão às quais se pudesse agarrar. Corrimãos cada vez mais frágeis; as palavras pareciam velhas, secas, exaustas pela tentativa de mudar o mundo. Possuíam uma capacidade inflamável, talvez por nunca serem capazes de absoluto.
(...)
Quando cantava, Rosa sentia que a voz se separava de si e subia os degraus de uma escada de luz. Era ela quem cantava o fado ou o fado que a cantava? Cantando, deixava de ser rouca e de tropeçar nas palavras. O seu sofrimento tornava-se alto como a noite e tão perfeito que encontrava assim uma forma de consolação.
(...)
Só o amor que Gabriel originara nela, um amor escuro, imóvel, feito da matéria da música e das palavras, a empurrara para o interior do seu talento, libertando-a do absurdo da História e da sua contingência
(...)
Praticamente ninguém se afoitava a ir mais longe do que o seu reflexo no espelho. Talvez tivessem sido assim desde o início dos tempos, superficiais, escapando a mergulhar na vida pelo pavor de antecipar a morte. O homem sensato matará metade de si para poder viver durante mais tempo - era este o fundamento de todas as culturas, o preceito central de todas as religiões.
(...)
A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão. Exige o dom da metamorfose e um alto grau de domínio perante a dor. O artista, como o amante, tem de ser capaz de sair da sua própria pele para se colocar dentro da pele do outro. Esvaziando-se na entrega, ganha também imunidade à dor -  há sempre um lado que contempla, de fora, a obra que dentro de si se está gerando. O artista sente-se um surpreendido Deus. O sopro da divindade, ou dessa iluminação súbita que a ela se assemelha, surge no ser humano por intermitências, frágil chama sobre corpos tocados pela vulnerabilidade do conhecimento antecipado da morte. Pode então suceder que o amante se encontre sufocado na rede de um amor desprezado, sem conseguir extrair desse amor mais do que raiva. Ou sofrimento.  
(...)
Gostou tanto da luz das velas, do silêncio ritual, do dedilhar da guitarra e do vinho como da canção propriamente dita. Gerou-se uma festa instantânea entre Rosa e Farimah, uma daquelas coisas de pele que apenas se referem nas relações de amor mas que constituem o lume inicial das grandes amizades; as paixões platónicas possuem também a sua lascívia.
(...)
Gostava de livros; ultrapassara todas as crises da sua vida com um livro debaixo do braço. Na dúvida, lia. Quando alguém o provocava, abria um livro e ignorava a provocação.
(...)
As palavras ficam sempre aquém da dor.
(...)
Todavia, trazia o pai por todo o lado, como agora a mãe, depois de morta.
- O dom da ubiquidade existe. Há pessoas que têm o poder de materializar a sua imagem num sítio onde não estão.
(...)
Na verdade, afeiçoamos o passado ao molde dos medos do presente; os olhares puros não têm data, sobrevivem ao cinismo contemporâneo como à maldade lisa que supomos ser sua avó. E o desejo é uma questão de cheiro e de pele, coisa animal que transcende a elaboração das transcendências. Farimah e Mandela amaram-se como estranhos e iguais, porque são essas as matérias do amor, relâmpago que tudo abre.
(...)
Rosa procurava o pai porque precisava de saber de onde vinha para saber para onde queria ir. (...)
- Queres a segurança mínima do teu espelho original. Ser completamente livre é impossível, pesa demasiado. Eu percebo-te.
(...)
Olhava-me como se nunca acabasse de me ler. Os livros eram o seu ar, é isso que ele tem de melhor e de pior: o que se passa fora das páginas não interessa, não acontece verdadeiramente, especialmente quando acontece em precipício. As palavras protegem-nos da queda dentro dos precipícios dos livros. Desabam-nos e erguem-nos.
(...)
Antes de entrar no palco da Casa de Portugal, Rosa descalçou-se. Precisava de chão. Estava exausta de procurar a terra no corpo dos outros. Não havia terra para lá das fronteiras da pele; cada pessoa era uma país, quando o conseguia ser. Ela sentia-se terra-de-ninguém, excepto quando as luzes se apagavam e a voz se erguia, no silêncio, cantando tudo o que não conseguia dizer nem chorar.
(...)
Não valia a pena acrescentar que o ódio é ainda um tributo do amor, que o bem e o mal se embaraçam de tal modo que a partir de certo ponto não conseguem destrinçar-se.
(...)
-Tudo dói. Cada palavra traz uma dor.
- E cada silêncio também.
(...)
Isso a que chamamos a nossa vida não existe - é um enxame. O que distingue uma vida da outra é o murmúrio do sonho, a distância a que cada um se coloca dele, o modo de brincar aos abismos.
(...)
As histórias não têm princípio nem fim; agarramo-las como náufragos em busca de calor e devolvem-nos uma vida distinta da que julgávamos viver.
(...)
O que é a paixão senão um movimento de fuga ao tédio da existência e um recurso da vaidade?
(...)
A vantagem de se chegar a um ponto de exaustão é que então só sobra a liberdade."
In: Dentro de Ti ver o Mar,
 Inês Pedrosa.

abril 14, 2013

O Cais das Merendas.

"A primeira grande certeza era essa. Que nos filmes os momentos bons só costumavam durar uns minutos.
(...)
Sebastião Guerreiro queria antes um verdadeiro deserto, areia atrás de areia, rocha a seguir a rocha, e onda e onda. Um espaço puramente desabrido que fosse só ausência. Era o que queria.
(...)
Aliás, era sobretudo quando o dia começava a cair para a noite que aquele aperto de garganta  e traqueia a que também se chamava anguish. Anguish, repeat, mister Sebastian. Aquele aperto se instalava na sua vida, oferecendo a quem calhava vê-lo de perto um ar de estátua pousada no dorso da melancolia. Precisamente o que em tempos terá levado a que lhe chamassem de Cagaça. E isso, porque mesmo e sobretudo aos domingos, o escuro começava a descer pelas seis da tarde com um acinte de urgência, como se fosse eclipse, e ficava raivosamente pelas horas inteiras da noite até ao princípio do amanhecer. Então as memórias afogueavam-me os dedos, e chegavam a humedecer-me a vista de homem feito no pleno da maturação, meus amigos.
(...)
Agora sim, a ausência e o passado faziam compreender o significado mais amplo e mais profundo de tudo o que lhe queria dizer naquele dia. Afinal a memória tinha um rabinho peludo por onde se puxava, e atrás vinham os afectos gritantes, ai de nós, ai de nós. E era tudo.
(...)
Como era possível as desgraças virem a acontecer nos sítios amenos, rodeados de jardins e batidos pelo mar todo praia, onde tudo falava de alegria, doces objectos, odores franceses, malas de viagem?
(...)
A partir daquela cena da janela podia Sebastianito Guerreiro duvidar de tudo, mas tinha uma certeza. Que a solidão era uma dor de rosca que subia do intestino à aurícula do coração, e aí alojada, produzia filhotes que esmagavam a vida. Desamparado, no meio da relva, tinha a impressão de que alguma coisa ainda poderia correr tão mal, que o fizesse passar do jardim à porta, da porta à cozinha, da cozinha à descarga e da descarga à lavoira. Como em certos truques de filme em que as figuras entravam de costas nas viaturas e regressavam de arrecuas aos bancos dos passeios públicos donde antes se tinham erguido."
In: O Cais das Merendas, Lídia Jorge.

março 24, 2013

O Vale da Paixão.

"Sim, tinha chegado a hora do silêncio, o século do silêncio, ele estava a iniciar-se com o ruído da fogueira no descampado, rente ao faval raquítico, nas encostas de arneiro onde assentava o quintal da nossa casa. Onde assenta. O silêncio apontava com o dedo o que iria acontecer, apontava o caminho do futuro da terra. O silêncio dizia que o céu seria assim. Um grande espaço sem nada, onde ninguém teria recordação de nada, onde não haveria ninguém para se lembrar de nada. Nada existiria no céu. Nem desejo, nem dor, nem lembrança de qualquer afeição. O céu seria assim. Os regatos congelados, as nuvens ausentes, assemelhando-se tudo a nada. Seria nada o céu. Que bom o céu ser um espaço aniquilado, o trabalho do homem dispensável, o amor em estado puro, parado. Isso seria o céu. Aqui na terra, ainda não. Ainda nos movíamos como animais, ainda traçávamos estradas, ainda tudo estava em movimento, mais que não fosse para tombarmos e então termos existido antes, depois termos existido muito antes, e por fim, já nem termos existido. Sim, assim seria o céu.
(...)
Mas ela tem quinze anos e é já uma mulher velha. Já imaginou cem mil sóis levantarem-se e outros tantos pousarem, e por isso ela sabe que o novelo está feito, e como uma mulher muito idosa de alma entrevada, ela sabe ficar onde está, sabe que é melhor não entrar. A rapariga velha tem quinze anos no Bilhete de Identidade, mas não é verdade. A rapariga velha é uma mulher muito antiga. Tem um século dentro da cabeça ou talvez mais, tem o início d'Ilíada dentro das pálpebras, tem uma infinidade de mortos aqueus e troianos estendidos na sua língua, tem o fim daquele livro na cabeça e sabe que, há milhares de anos, tudo está amalgamado ao longo de uma praia sob nove camadas de areia. Por isso sabe que não vale a pena dar um passo para mudar, a comédia é a mesma. Correr para diante é ir ao encontro do que ficou para trás.
(...)
Sim, era muito bom, mas a natureza humana repudia a bondade exagerada da Natureza, não confia na estabilidade dela nem acredita que seja seu simulacro, e ela achou que, perante aquela regularidade do azul espampanante do céu e do mar, aquela paz furiosa nascida de uma beleza gritante, era preciso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa que rebentasse aquilo que se erguia na sua frente, harmónico e singular, e lembrou-se da noite em que sentira alguma coisa de semelhante, lembrou-se da noite da chuva. Uma mistura de risco minando a beleza, rasgando a beleza suprema, deflagrando-a, e estupidamente, cretinamente, lembrou-se também do revólver Smith.
(...)
Durante a discussão, o que ela quer dizer é que a sua alma, o nicho onde ela se enrola e esconde, onde ela pernoita, onde ela sabe o que sabe e desconhece o que é para desconhecer, esse sempre fora intocável. (...) Essa a sua herança de preservação, a sua coutada real onde só ela caçava, só ela largava os seus cães e apanhava os seus cervos armados.
(...)
Não se pode salvar. Todas as cartas que vier a escrever serão sobre esses objectos mortos que jazem por terra, que estão pendurados das paredes, que estão na rua à chuva, nos buracos luarentos dos palheiros, nas geringonças dos sarilhos dos poços, nos alcatruzes das noras, presa das mortes dos criados e das meninas que nelas se afogam, das avencas que fazem molhos verdes e se confundem com o dorso dos sapos. Está presa do sapo, da salamandra escura de rabo torto, do álamo, do cipreste, do cemitério branco onde os seus antepassados desfizeram os ossos, os seus nomes presos ao solo, antes de desaparecerem nos confins perpendiculares da terra, onde por acaso também está a pedra do Dr. Dalila. Ela está presa ao coração oculto das pedras. Ela nem vai, só regressa.
(...)
Mas sobre o infinitamente insignificante que a sua memória aos pedaços retinha e a passagem do grande resto que era esse infinito oceano exterior deslizando veloz, erguia-se, vigoroso e concreto, o que ela própria amava. Ela sabia desde há muito, que para si mesma, em certas noites de chuva, a história da humanidade era menos importante do que a história do seu pai, por indigno que fosse pensá-lo, quanto mais dizê-lo, ainda que o fizesse em voz baixa. "
In: O Vale da Paixão, Lídia Jorge.

fevereiro 13, 2013

Quando


Avô,
 ainda hoje sinto o coração andar para trás.
Na curva de um caminho só nosso.
 
 
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
 
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
 
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Sophia.

janeiro 21, 2013

O Vale da Paixão.

"Só dispúnhamos de uma única, aquela noite de chuva, e termos a certeza de que estávamos a correr dentro dela, sem a podermos repetir, impedia-nos de a viver.
 (...)
Os anjos sempre teriam tido saudade da noite em que foram animais, e as bestas sempre hão-de sonhar com o dia fulgurante em que terão caçado a criação inteira, na sua efígie de anjos. Não havia solução para essa dupla saudade.
(...)
Mas ela queria dizer que havia objectos que não desapareciam, que apenas deixavam de ser matéria e de ter peso para passarem a ser lembrança. Passavam a ser fluido imaterial, a entrar e a sair do corpo imaterial da pessoa, a incorporar-se na circulação do sangue e nas cavernas da memória, para aí ficarem alojados no fundo da vida, persistindo ao lado dela, e naquela noite, bastaria aproximar o candeeiro a petróleo do corpo da filha, em camisa, e agasalhada pela colcha, para confirmar como esses objectos se encontravam morando dentro da sua cabeça.
(...)
Na noite da chuva, já ela sabia que a vida não pertencia apenas a quem pertencia, mas também a quem a relatava. E que a vida de Walter não era só dele, era de muitos porque em Valmares todos a imaginavam e relatavam o que imaginavam. Walter também existia nos outros e cada um tinha um pedaço dele, um pedaço de que falavam com gosto, como se Walter inteiro lhes pertencesse.
(...)
E a vergonha, na criação de obediência, era um sentimento imprescindível em todos os tempos, principalmente nos diligentes anos trinta.
(...)
Pertencia ao grupo dos que desconhecem que existe um intervalo entre o acto e o ser, um espaço indomável que ninguém alcança e que transforma cada homem na matéria humana.
(...)
Custódio tinha a coragem própria dos que perderam tudo ainda antes de terem começado as batalhas e amava o irmão, aquele que tinha a parte que a si mesmo faltava. Era como se viesse a caminho a outra metade de si. Por ele, Walter voltaria já.
(...)
Herdei a vivência rumorosa do que sucedeu antes do silêncio. Tornei-me herdeira da imagem dum amor, duma paixão envolvida no seu desencontro, e no entanto alta. Essa imagem atravessa o silêncio de muitos anos, dez, vinte, trinta anos, depois, o carro, que sempre se desloca sobre essa película fina, chega e pára, envolto em silêncio. Um aconchegado fantasma. Maria Ema e Walter vêm dentro dele. Embora eu saiba que nunca viajaram sós. Provam-nos os retratos de Kodak."
(...)
Era culpada, responsável, duma responsabilidade mais funda do que a culpa, porque nascida dum estado criado antes de mim mesma, uma condição herdada que me fizera à imagem e semelhança da própria culpa."
In: "O Vale da Paixão, Lídia Jorge.

janeiro 07, 2013

O Prémio.

 
" - Os meios para transformar a realidade são os terramotos, a iniciativa privada, as instituições internacionais, o Estado, o Cinema e a Literatura. Em Espanha, a iniciativa privada no campo da economia, a política e a sociedade civil constituem três vias miseráveis, inoperantes e mentecaptas. Talvez seja por isso que eu me dedico cada vez mais à literatura, não porque ela modifique a realidade mas porque a substitui por outra, a bel-prazer do autor; daí o financiamento do Prémio Lázaro Conesal. (...)
(...)
Já não servimos para comprovar as regras do jogo mas, pelo contrário, servimos como matéria de catarse nos altares purificadores de um sistema triunfalista que quer ir pelo mundo de cabeça muito alta. É muito divertido que o capitalismo, sem inimigos, descubra que os seus inimigos são os capitalistas. Qualquer coisa de parecido com o que se passou com o comunismo."
In: O Prémio, Manuel Vázquez Montalbán.

dezembro 23, 2012

O Último Cais.

 
 
Para a (minha) .
 
"Na verdade, não era de subestimar a influência das velhas criadas. Mais antigas nas casas do que velhas em anos, as velhas criadas - como, noutra escala, as velhas meninas - eram respeitadas pela sua influência, pela confiança de que gozavam, pelo acesso fácil à intimidade das senhoras e à confidência dos meninos chegados à idade dos primeiros sobressaltos amorosos. Tinham vindo do campo - e dizia-se do campo quer se tratasse de uma aldeia piscatória ou de um lugar perdido nas montanhas - quando contavam doze ou treze anos, com o objectivo de cuidar das crianças que começavam a andar e requeriam uma vigilância atenta e paciente. Eram, no mais autêntico sentido da palavra, criadas: tinham crescido ao lado dos meninos da casa, partilhando das suas brincadeiras, aprendido regras de educação e de convívio; sabiam pôr uma mesa com inexcedível rigor e utilizar todos os talheres com acerto e propriedade; haviam participado das alegrias, dos lutos e das viagens da família, acompanhado os meninos ao colégio, confeccionado os preciosos doces conventuais que eram tradição das casas madeirenses, rejubilado com a boa sorte dos senhores ou chorado com a sua má fortuna. E quando, porventura, voltavam ao campo para o funeral dum avô ou para a cabeceira da mãe doente, cedo se saciava a saudade da família, dos vizinhos e do lugar e logo lhes apetecia o regresso à cidade, ao quartinho do sótão, à tagarelice das companheiras, à autoridade sobre os trabalhos domésticos, aos desabafos das senhoras, aos bilhetinhos das meninas e dos seus namoros.
Algumas das velhas criadas casavam, trocavam o lugar de mando e confiança pela oportunidade de terem a sua própria casa quando ainda dispunham de tempo para gerar meia dúzia de filhos. Recebiam a bênção e as prendas dos senhores, transformavam-se em costureiras ou mulheres-a-dias, continuavam a frequentar as casas e a partilhar da vida das famílias. Outras mantinham-se solteiras, perenemente, eternamente à margem da vida, ouvindo contar experiências e desastres, venturas e decepções, guardando tudo tão vivo e tão forte que, com o decorrer dos anos, chegavam a pensar que haviam protagonizado, dum certo modo indirecto mas não menos marcante, cada um dos eventos. (...)"
In: O Último Cais, Helena Marques.

novembro 21, 2012

A Árvore das Palavras.

 
 
"Porque tenho a certeza de que tu és bom. É uma certeza grande, como saber que a terra gira, o sol nasce ou as estações do ano se sucedem. Tu és bom como as árvores são árvores e a chuva é chuva. Não é preciso reflectir sobre isso, porque também ninguém discorre sobre as evidências.
Viver é muito fácil, porque meço a partir de ti o norte e o sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem. Estás sentado na cadeira-à-aviador e eu ando em volta, parto para mais perto ou mais longe, posso mesmo voltar-te as costas e partir noutra direcção, sei que não vou perder-me, porque tu estarás sempre sentado, a ler o jornal, ao fim da tarde. Todas as vezes que eu voltar a cabeça, ver-te-ei.
Um homem bom é uma luz na janela. As coisas ganham limite e solidez, brilho e cor, e eu caminho dançando por entre elas. É porque estou segura que ganho a liberdade de dançar, é porque não tenho medo que improviso, é porque ignoro a rotina que me entrego ao fulgor. A dança é isso, um modo mais intenso de existir. As árvores dançam, as folhas dançam, a chuva dança, os animais dançam, o sol e a lua dançam. Tudo o que há a fazer é deixar-se puxar para dentro do seu círculo, deixar-se sugar sem medo para dentro da órbita desmesurada das coisas. Então a vida começa a passar por nós e inclui-nos e nós baixamos a cabeça de dizemos «sim» e dançamos. (...)"
In A Árvore das Palavras, Teolinda Gersão.

setembro 20, 2012

Nas tuas Mãos.

"Dizem que o amor se faz de uma comunidade de interesses subterrâneos, restos de vozes, hábitos que nos ficam da infância como uma melodia sem letra, paixões pisadas na massa funda do tempo, mas nesses anos entre guerras os sentimentos explicados não interessavam a ninguém. O amor era então criação fulminante do tédio e da inocência, feito do carnal recorte da beleza, magnífico de crueldade. Amei-te de repente, com a luminosa injustiça que me afastou de todos os que me amaram por me serem semelhantes.
(...)
Nunca contei esta história a ninguém. Não me pareceu que tivesse qualquer interesse, as pessoas aborrecem as histórias felizes e têm razão, a felicidade convoca o que há em nós de mais melancólico e solitário.
(...)
Tudo o que há para saber do amor é deslumbrada aceitação. Não se aprende a amar, Camila; não há vontade democrática capaz de espalhar a paixão pelas bolsas de pobreza onde ela não chega, nem fábricas capazes de a produzir em peças, para montagem, construção ou exportação. Não há nada de justo neste sentimento: a justiça, aliás, não passa de um espectáculo de ordenação do mundo, um circo que inventámos para substituir a irracional lei do coração. Não procures explicação para a minha vida, nem a tomes com pena ou escândalo; quando eu ficar tão velha que pareça louça, lê nestes cadernos que eu fui feliz. Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte. O amor, Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele.
(...)
O amor não tem portas que possamos abrir e fechar, nem passagens secretas para um sótão onde possamos fazer férias dele. Toma conta de tudo em nós, envolve-nos como um lençol de tédio, sedoso, infindo. Ninguém fala deste tédio sublime, tão contrário à acção e à eficácia, imóvel inimigo do progresso do mundo. Só no trono do sonho, iluminado e funesto, o amor interessa. Prolongada, a vida torna-se demasiado curta e o amor ganha o ritmo da chuva que bate leve, levemente.
(...)
A vida é uma infindável colecção de testemunhas: precisamos que nos observem, na vitória como no fracasso, precisamos que nos prestem atenção.
(...)
As fotografias provavam-me que a verdade se podia fixar para sempre. Depois o acto de fotografar tornou-se-me uma obsessão, quando a verdade deixou de existir para além da imobilidade das imagens.
(...)
Talvez a vulgarização da beleza acabe por a fazer regressar, em saturação, à subjectividade que inventou a arte. Quanto mais intensa é a fonte de luz, menos suportável é olhá-la e mais sombra provoca, até que um lado seja visível.
(...)
Descobri cedo nas fotografias da minha mãe que a felicidade é uma colecção de instantes suspensos sobre o tempo que só depois de amarelecidos pela ausência se revelam. Nessas fotografias aprendi a não temer o amor e a nostalgia dele, e tornei-me, sem que ela se apercebesse, uma outra espécie de caçadora da luz. No movimento preciso dos dedos longos dela sobre as máquinas de fugir à vida descobri o erotismo como pressentimento de ferida, trabalho incessante de recordação. Trago no meu sangue que é dela esta calada paixão pelos amores mortos, esta determinação de só depois entender o essencial, de amar as distâncias como única proximidade do céu. (...) Foi o desespero que conduziu a minha mãe à fotografia. Uma vez disse-lhe, em tom de desafio, que a fotografia é um inventário de mortos. Uma arte lúgubre. Ela riu-se: «Por isso é que eu gosto dela.» Hoje, parece-me que até o desespero é difícil. Pelo menos é difícil seguir até ao fim de um desespero inteiro.
(...)
Escolhi arquitectura porque me parecia o único modelo de arte onde a ideia de responsabilidade social podia ainda sobreviver sem troça. Uma arte onde o grande imperativo da liberdade se podia ainda exercer com um propósito altruísta, escapando à frívola fantasia combinatória destes anos de contínua reinvenção individual. Mas também a arquitectura ajoelha diante do deus da ostentação.
(...)
Por mais que me esforce, continuo no estado mitológico puro: fé ou desespero. Não sei fazer de conta que vejo o que não vejo.
(...)
As pessoas herdam muitíssimo mais do que à primeira vista se pensa. Valores, formas de sentir e exprimir o sentimento. Não é tão pouco importante como parece. A origem da minha curiosidade pelas formas do universo e do meu amor por todas as formas de arte enraíza-se menos na profissão da minha mãe do que numa educação para a alegria, numa noção do mundo como lugar transformável, cheio de possibilidades. Foi essa a atmosfera da minha infância - e para ela contribuiu não só o sangue da minha mãe (e do meu pai?) como o exemplo da Jenny, e até da nossa velha Rosário, quase analfabeta mas cheia de um genuíno encantamento pelos pequenos pormenores que aquecem a vida."
 
Inês Pedrosa.

agosto 31, 2012

O Livro do Meio.

"O impulso de querer saber da infância, o que é o sinal certo de amor.
(...)
Na impunidade da lealdade da amizade. Matar um irmão diante do Amigo ou vice-versa, sabendo que ele não vai transformar o desabafo numa injúria. Ou denúncia.
(...)
E eu não ia, sendo a repetição o princípio do prazer.
(...)
A casa onde eu nasci ainda lá está no meio da aldeia que foi recauchutada. Quando passo por ela, ela não me conhece e eu faço o mesmo. Respeitamo-nos. Que é um modo de dizer que não há amor e o ódio ficará para mais tarde.
(...)
Como aquela gente cantava e bailava nos intervalos do medo, da humilhação, do desamor, dos gritos, na Casa dos Gritos. Suponho que era a essência da prosa contra a afinal mansuetude da Poesia.
(...)
A timidez perante a excelência do trabalho do outro é uma das bases desta empresa. (...) Na amizade é preciso traduzir. (...) Diz a Agustina que as pessoas que amam os cães são as mais egoístas sobre a terra. E ela gosta de cães. Porque os cães são uns mestres de zelar pelo que é teu, a família, os bens, as emoções profundas, mesmo quando tu te desleixas ou adoeces? Lobo da decência e da perseverança, o cão. Causa amante, contra toda a evidência, um cão.
(...)
Esse gesto de abrir a porta do sagrado era para mim o de maior transgressão. E devia ser o que em mim mais se aproximava do espírito do sobrenatural que me faltava de todo. (...) Talvez eu quisesse abençoar a própria solidão que desde sempre foi a minha companhia absoluta. E assim, pudesse eu perdoar ao próprio Deus uma natureza que ele me atribuiu sem que me fosse dada qualquer satisfação."
Armando Silva Carvalho&Maria Velho da Costa.


julho 14, 2012

Um Fado: Palavras Minhas.

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen.

maio 18, 2012

maio 17, 2012

Carta aos 25.


"Todos somos chamados, pelo menos uma vez, a desempenhar um papel que nos supera. É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos."
Sousa Falcão,
In: Felizmente há Luar!,
Luís de Sttau Monteiro


O corpo confunde-se com o verde silêncio do espaço, a neblina matinal é sorvida pelo sol numa dança que adoça os cantos aos muros que se lançam aos passos, envolvendo as janelas das casas como uma fina renda branca. Surjo sem destino, estrada fora, o ardor dos olhos dessa hora puxa pelo coração que revela as inscrições mais cavadas na minha geometria. 
O meu irmão acode por entre a paisagem do parque das recordações e a minha carne arrepia-se como se ela própria se tocasse num carinho infinito e descobrisse o peso da comoção de um fado que aconteceu. Desde sempre gostei da luz muda do começo do dia e de abrir os olhos, agarrar-me à vida, um céu e nada mais. Enquanto caminho, apanho-te na ponta dos dedos, surpreendo-te com a caneta sobre uma folha em branco e com um sorriso aberto para o ideal que não sabes se virá, mas ainda assim formulas, numa perpétua tentativa, um mundo volumoso que devolves aos outros como um presente, como sugestão que traz a coincidência entre presente e futuro, as tuas mãos pintam de esperança o espaço que constróis com o outro, pelo outro.
Vou fazer vinte e cinco anos e gosto de os celebrar contigo,R., os momentos sucedem-se e sorrio, sozinho, embalado pela relativa serenidade que conquistei, neste tempo. Desde sempre te disse para não sofreres tanto com os desaires do mundo, para não agarrares o sofrimento pelas costas que é quando ele retribui o gesto e passa a morar dentro de ti. O mistério da vida começou de mãos dadas, eu e tu, impressos num corpo quase idêntico, num diálogo que escapa pelos fios da persiana, semi-acordada na madrugada e ao próprio entendimento dos outros, intrigados transeuntes num cenário de papel. Sempre te inquietaram as paredes que impediam o espaço da alma de ser maior, mais expressivo, e a opacidade da injustiça levou-te cedíssimo para as palavras, arma de reinvenção, de desafio, de chegada até ao outro eu que mora no corpo dos que por nós passam. Sempre te admirei, espreitando, às escondidas, esse milagre da carne grávida de sonhos, de ânimo, de febre.
Procuro o jardim, afogo-me no perfume das flores, a beleza abre-se como um livro, como um terreno onde as explicações deslizam como pétalas soltas sobre o leito da última noite, a terra húmida não mente nunca. Não estás comigo e és tu quem mais me lembra que estou vivo, que me puxas com o teu desajeitado braço de criança para a frente, sempre foste o meu disfarce favorito, preso eu a um sarcasmo de quem já nasce velho e se vinga, impaciente, de um mundo que não mudou como esperado. Sorrio ao lembrar os meus quinze anos, montado nuns Oxford castanhos, que percorreram o mundo a preto e branco em aforismos, preconceitos, raivas, quando o que eu só queria era romper a noite mais depressa, limpar com as mãos a poeira que me apertava o coração. Queria arrumar a casa, sem partir nada, depressa, se faz favor, e viver sem imbróglios que amarrotassem o sentido. Era medo e a sua negação, ritualística, por amor de um lugar seguro, lá, ali, já à frente.
Neste, às vezes, convulso itinerário de corredores e saídas de emergência partilhei tudo contigo: as minhas mortes íntimas, o meu exótico desdém que desbotou quando a chuva da maturidade se abateu sobre a vida, o desespero corajoso, as dores agudas que aprendi a guardar no corpo, algures entre os olhos e a boca, as alegrias e uma gargalhada que tantas vezes fez o vento cair das árvores, com estrondo.  Gosto do desalinho divertido que, de manhã, ao espelho, ensaias para suspender a maldade do dia com esse feixe de Estio que consiste em provocar os outros, obrigando-os a tornarem-se convictos sobreviventes de guerra. Tens o dom da sedução, as mesmas mãos que sempre me ajudaram com uma sisuda cautela, ajudaram muitos que se enrolaram no teu verbo para conhecerem uma inteligência luminosa, quente, carismática.
Rimos muito um do outro e nunca esqueço a tua pancada, debaixo da mesa, quando o meu silêncio, uma espécie de preguiça do outro, um castigo que tem que ver com as pequenas coisas da maldade que já nasceram comigo, começa a alastrar no recinto onde nos encontramos com o espectáculo da vida. "Onde não há ruindade, não há bondade, meu caro", disparo eu. Partilhamos essa devoção pelos antepassados, pelo cheiro a tempo nas divisões de uma casa, da qual nunca se muda, e que nos desobriga de viver a irritante felicidade sincrónica dos que não são de ninguém. Dou contigo, muitas vezes, a ouvir-me falar, com uma cólera que levanta o chão e me complica a vida, e fico mais triste quando me lembro que o mundo não coincide com o tamanho do teu sorriso e da tua bondade e que há quem já não volte, em carne, uma carne que eu amo tanto, aos lugares que preservamos sob um motor que nasceu connosco: o património, essa fileira de escadas onde nos reunimos todos, saudosos, cobertos da melancolia que escorre dos olhos, mergulhados nas fotos que nos ensinam o sofrimento como a disciplina dos que vivem, sendo alguma coisa. É uma guerra aberta, feroz contra a morte que nos leva a cuidar das frágeis linhas azuis onde adormece quem foi talhado de sempre.
 És meu irmão e és aquele que mais sabe de mim, nunca sou tão feliz como quando as coisas simples do quotidiano nos chegam aos dois, lado a lado, sem sono, apegados a crenças, a valores, a medos, como duas crianças teimosas que desafiam o exílio podre dos citadinos. Nesta matéria, coitado, ouves-me sempre a desfiar a mesma cantiga sobre como os grandes homens vieram de lugares mais pequenos do que eles, é preciso ser-se o elástico moral, a primeira palavra dos tempos que se vivem, no lugar onde se vê coisas que não estão lá. As cidades são quase-só monstros de solidão e distância definitiva, de discreta mediocridade onde a anestesia se encontra numa renovada promiscuidade com o novo, o fácil, todos os dias. Nasci duro de esquinas, digo o que penso e faço o que digo, numa brusca tentativa de que os que amo não se percam, flutuando do alto da sua juventude, de costas viradas para a vida, que não é boa a maioria dos dias.
Sempre tu, a abraçares-me perto do limite sem medo que a rebentação nos consuma de mais, completamente. É a definição do amor na sua constante expansão, sei bem que me amas por aquilo que ainda não consegui ser e mais ainda por aquilo que me está interdito perceber. Dizes que vou morrer mais velho do que todos na nossa família, eu rio-me alto, sei bem que não vai ser assim. Só sei que quero voltar a casa, um dia e antes de ti, pela lição de amor mais extraordinária que recebi de quem me faz falta, a cada minuto. Somos criaturas de fidelidade, eu e tu, em que o princípio de participação se consuma num leque privado de seres, em circunstâncias em que importa recuperar a pátria que nos faz levantar e caminhar, estrada fora, logo pela manhã. "Em casa somos pessoas, lá fora somos ideais", dir-te-ia eu, com medo que te desiludas com o carácter tão primário da vida, num passeio pelas ruas que nos viram crescer até à porta onde se inscreve o número catorze. O sangue renasce do sangue.
Já são vinte e cinco, rapaz. Seremos sempre uma e a mesma coisa: um auto-retrato, um jogo de espelhos onde ninguém é de ninguém por obrigação, ou talvez também por isso, no que os imperativos de coração e de misericórdia nos obrigam a fazer para merecermos o dom da vida e encontrarmos o terreno subterrâneo que nos junta uns aos outros. "Coragem, Saúde e Fé", sempre ouvimos aqui em casa, e esta noite, porque não estás aqui, no quarto, vou pedi-lo com mais força, com o espírito cheio, impaciente. À espera que voltes. Sempre. Para que eu possa viver.