outubro 10, 2011

Nazaré do Carmo Mesquita.

A minha tia tinha uns olhos azuis do tamanho do mistério das coisas do mundo, ora afiados de curiosidade propulsora, ora quedos a perscrutar da vantagem das opções que lhe vinham cair aos pés, como uma manta bordada de glória e carácter. Sinto uma saudade indizível desses dias mornos passados em redor de uma cumplicidade que pintava as paredes de graça, as janelas de uma tonalidade feliz e me faziam testemunha de qualquer coisa de extraordinário. A minha tia-avó era uma mulher singular e essa pontuação firme nas linhas da sua expressão, essa rugosidade das almas grandiosas, a vertigem do desejo humano, fixei-as eu desde muito pequeno, calado, deixando que o silêncio da contemplação me trouxesse aquilo que hoje sei afagar, por dentro da pele, quando as palavras viram tema, no meu coração. Tenho a massa do corpo revestida de imagens, sons, trejeitos que guardo como a um pequeno tesouro que me orienta neste caminho sinuoso. Sempre a olhei com respeito que é o mesmo que dizer que o amor veio continuamente acompanhado de atenção, de encantamento, de um certo acatamento, até, que nunca se venera sem pudor. Já passaram dois anos desde que me deixou, a minha tia, e a esta distância tudo me parece mais e mais manifesto como uma fé que se agiganta aos pés do inefável. Sempre fui avesso às dinâmicas do conjunto, sempre achei que a morte é factor suficiente para que cada um se inquiete em perdurar, para lá das leis do grupo, mesmo que fantasie um pouco em inspirar, conquistando a atenção, puxando os olhos dos outros para o seu labirinto de sonhos e passos. A tia estava bem no centro dessa afirmação de temperamento, há nos grandes seres uma conquista a partir de dentro, e o lugar dos homens da casa foi cedo assediado pela sua alma, maior do que o pequeno espaço de uma vida, e cresceu tornando-se um elemento de identificação, de semelhança. Certa da imagem que o espelho devolvia, ampliada em brilhos de ouro e de vaidade espontânea, despertou em si a corrente que me seduziu e que é a do desafio. Depois de aceite pela legitimidade de um discurso muito provado, tornou-se aliciante o jogo do confronto, a demarcação de um destino próprio, cheio de aforismos, imperativos e de teimas. São as personalidades polémicas que mudam o mundo, sei-o eu, sabem-no todos, aqueles a quem esse furor que acorda os mortos e os faz sorrir, os amarra a um papel secundário. A tia assaltava os dias com a franqueza que borbulha na massa do sangue e se espalha no mundo através de uma música arcaica, arrancada ao limite das forças do corpo, sempre ao serviço dos olhos da mente. Tenho saudades dessa sua generosidade discreta, sem audiência, em que se certificava que aquilo que a fazia permanecer se transmitia a um mundo que nunca muda, no que é essencial. Antes uma danação tantas vezes experimentada que vira agasalho do que um encontro inelutável com o que surge, frouxa a presença da carne no mundo. Era uma mulher que vivia assente em traves de pedra, com arestas e génio que prescreviam inteligência, destreza no contacto, mas que se abria em sorrisos que abraçavam o corpo intrigado das crianças que sempre quis ter em seu redor, ternurenta até ao fanatismo, calorosa como uma tarde de Agosto, o seu mês, acertadamente. Sempre gostei muito de si, sempre consegui ouvir o seu coração chamar-me, o silêncio é o melhor pano de fundo para a música do amor, onde o desespero se dilui em abraços que adormecem os nervos, circuito dos antepassados, baú de vozes que viajam através dos tempos. Julgo que esse carinho que devotava aos seus preconceitos, às suas convicções como a uma espécie de degraus de um templo em construção, a faziam deliciosamente viva, presente, lúcida, comprometida com o chão da vida e com a marca que queria alcançar. Desde pequeno, quando me sentava ao seu lado, admirando-lhe a elegância luxuosa, nunca lhe notei o que mata tristemente um homem para os deveres da existência e que é o medo, a sua cabeça funcionava num esquema predatório que fazia da morte um credo que se ignora, por instinto. A invulnerabilidade que assustava os fracos e a aproximava dos seus pares fazia-a, aos olhos do mundo ordinário, uma senhora solitária, enredada numa trama de casta, mas é mesmo assim que o segredo do melhor de nós sobrevive, pouco partilhado, sussurrado em jeito de fina ironia. Estava lá eu para a observar, sentada no seu cadeirão, a vigiar o mecanismo do mundo, tilintando os dedos no dorso de tecido, a cronometrar as actividades domésticas, bondosa sem brandura, ciosa das distâncias que conferem segurança ao serviçal e reputação ao dono da casa. Tudo isto se passeia no meu sangue, o braço esquerdo, às vezes, vibra de tensão, a excitação dos mortos renasce a cada passo na minha vida muito virada para dentro de casa, para testemunhar esse milagre da vocação sucessória que se dá com as personalidades de uma família. A tia era protectora dessa missão de levar o nome comum a luzes mais distantes, fazendo-se difícil, a única forma de enganarmos as nossas próprias angústias, rindo do mundo e dos azares das outras criaturas. A uma criada moribunda quis comprar a medalha de ouro da casa que apadrinhou a sua irmã e nisso há uma vontade de bordar com irreverência, de inovar no esquema da vida, achando que se falta, por capricho, ao último acto, a morte. Há uma onda de humor viril em toda a sua passagem por este palco onde sempre quis sentir prazer, mesmo causando achaques, onde não se contentou com o alinhamento da peça, fazendo tropeçar a criada para logo se certificar que ninguém acreditaria. A saudade que lhe devolvo é a prova de que a sua vontade de inventar uma história pessoal a partir de regras estimadas como a um filho permanece na franja dos dias que hão-de vir, subidos das lajes de pedra onde os corpos dos meus antepassados descansam, onde a tia encontrou a morte com uma disciplina de emoções que a manteve digna, até o fim, independente como o são aqueles que interpretam a vida como que precedida de um aviso que lhes abre as portas de um mar terreno, que lhes permite gozar as ondas sem a vertigem do medo sem mais, prevenidos de coragem. "A porta abre-se sozinha para os deixar entrar e eles dizem «aqui estou» como um peregrino com a certeza de ter achado um abrigo", escreveu Agustina, e eu não acrescento mais, seria atropelar o encontro com a grandeza do Homem.

outubro 07, 2011

outubro 03, 2011

Fanatismo*

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

«Tudo no mundo é frágil, tudo passa...»
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»
*Florbela Espanca

setembro 28, 2011

setembro 18, 2011

setembro 11, 2011

Pensemos, pois.


159. Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que depois deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções, memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos de onde vem. A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer. Mas havia sol e a alegria dele era gratuita, sem finalidade nenhuma, e isso agravava-lhe o absurdo de ser. As águas brilhavam até ao indeciso do seu limite. Um homem ocasional, eu, olhava o seu mistério inquietante, tentava entender a estranheza de tudo isso. Sentia a presença de uma realidade inexistente, porque ela não existia senão no que estava vendo e, no entanto, eu sabia, na minha inquietação, que estava lá. Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o «escrever bem»? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dele. Assim ela constrói outro mundo que aponta apenas para o primeiro mas se não parece nada com ele, mesmo quando se parece e todos os elementos se lhe ajustam. Porque aquilo com que se parece é o invisível dele, a outra coisa das coisas, o mistério que lá mora e se reconhece, depois, que lá mora e o reconstrói na sua invisibilidade para ser enfim o real como tal reconhecido. Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir, porque ele o revelou. E é tudo.

179. Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo conluio com Deus.
Vergílio Ferreira,
In Pensar.

setembro 01, 2011

Avô-de-toda-uma-Vida.

Há uma janela em minha casa de onde vejo o mundo todo, ele coube-me inteiro no espaço tenro da infância, lugar sem pressas, abrigo sem paredes de angústia, alvorada com sabor a promessa. E esse retrato principal passou, as horas sucederam-se, os sons da vida distraíram o coração calejado dos homens. Volto a olhar, para ver, deste mesmo sítio onde aprendi a linguagem dos afectos para nomear o que me aquecia a pele por dentro, para reclamar um território de olhos fechados. Não sabia nada, não mudei muito, desde então. Movo-me de olhos cerrados ao sabor desse vento que a alma me devolve, às vezes, quando o dia se despe tornando-se memória íntima numa pele arrepiada de noite. É o teu rosto que trespassa o músculo tenso da rotina, é ele que me chama o que nunca fui suficientemente, o teu neto, que a morte arrastou contigo para esse campo de pedras estendido sobre o mistério da terra. Há um vento acidentado de Fevereiro que me ensinou a chorar por alguém e já não por coisas, que me engoliu todo para dentro de um pequeno espaço onde o teu corpo se despediu de mim. Já lá vão onze anos, Avô, e tanto o mundo mudou sem que eu o acompanhasse realmente. Um homem doente é um exilado, digo-te eu, e o amor pode bem ser a doença que me mantém vivo, sofrendo, mas agarrado a esse espinho de luz que quero honrar, que quero manter aceso. Os teus olhos, as tuas pequenas mãos pousadas sobre a carne que nos une, que nos ata um ao outro, duas peças de um mesmo organismo, duas vozes que se escusam mutuamente num silêncio que contempla a nudez de tudo, a verdade sempre por detrás da pressa. Olho e reparo, a noite vence o pudor e condescende: a casa ergue-se como um agasalho contra o medo, as janelas são o futuro que tu tantas vezes puxaste com o suor do teu trabalho, com a perseverança que a madrugada chamou de teimosia, enquanto os teus filhos dormiam à espera do que tu não tiveste. Há uma dimensão física do amor que nos torna imortais, hirtos contra a finitude antecipada, e as rugas do teu rosto sempre sorriram ao que chamam envelhecer. Nunca se é velho quando se é contemporâneo da esperança, artesão de uma vida melhor, confidente de coisas que a linguagem não ousa prender. Avô, lembro-me de ti, da nossa despedida, de me dizeres que era um tempo que se estava a fechar, os dois, nesse lugar mágico que eu avisto da minha janela e sei que nessa hora me senti exíguo, emudecido na adivinhação de uma mão invísível que desenhou o espaço em branco da morte. Dou-te a mão, daqui, deste sítio onde a cada dia semeio um pedaço de sonho, um excerto da tua alma, ampla como o verde forte da tua terra, e ganho raízes, sou outra vez um miúdo a bater à porta, esperando o teu passo sereno ao cimo das escadas, a felicidade são vinte e tal degraus e um coração sôfrego. Espero há onze anos que essa porta se abra pela tua companhia, pelo cheiro a sangue quente, rosas e camélias, os objectos reflectem o nosso passado juntos num jardim de carinho. É uma porta escura, esta, que te separa de mim, nas visitas que te faço, fugidias, tenho medo do que a água dos meus olhos me quer contar, prefiro prometer voltar, sempre em frente, desde a porta maior desse lugar onde descansa a minha origem, a tua origem, a nossa. Espreito, pelo vidro da morte, quando estou sozinho, e falo contigo, digo-te tudo aquilo que o amor sempre renova, inspira e desenvolve. Vivemos os dois, deitados lado a lado, entre paredes de pedra onde o teu olhar sibilino aguarda os teus, sem pressa, abdicar é próprio dos grandes, sempre soubeste entregar o melhor de ti aos outros e sentir nessa dádiva um acerto com os ponteiros do mundo, a tua hora é a minha vida, meu querido Avô. Enquanto eu viver e o arrepio da dúvida nocturna me acompanhar as insónias do coração, a tua carne será um abraço maior do que as distâncias, os teus olhos verão mais longe, deixem as minhas pernas que o teu Norte se manifeste. Sou um cabotino, um ignorante, sei-o, serei sempre, mas aprendi o que não tem preço, título ou grau e que é o que me torna mortal e não morto, já: senti nas entranhas a declaração desse espaço em branco maior do que a morte, dessa casa onde cabemos ilesos, todos, tantos, e que se chama amor. É uma janela aberta, Avô, de onde o teu sorriso prospera em direcção aos campos, à misteriosa luz do raiar do dia, e a uma criança curiosa que te perguntou, com as mãos, o que era aquele calor que vinha do teu peito e que lhe fazia bem, só isso, e que era afinal tudo. Será sempre, prometo.