julho 07, 2013

A Eternidade e o Desejo.

"O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor -  por isso permanecem quando as cores desmaiam.
(...)
A voz de um homem desbravando a fé nas palavras, fazendo de cada palavra uma catapulta, um forno, um berço, um gesto de reconstrução do mundo. Um céu partido ao meio no meio da tarde, um céu despenhado, pedra a pedra, da voz deste homem.
(...)
É verdade que o amor cega, paralisa, entorpece - mas apenas para tudo o que não é o amor. E tudo o que não é o amor é o mal do mundo. Não vale nada.
(...)
Vieira não precisava de nada nem de ninguém. No fundo, acho que lhe bastava a consciência de que tinha Deus dentro de si -  ou a eternidade, ou o conhecimento, como preferires.
(...)
Mas eu vejo tão pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebastião. A eternidade que somos conduzidos a aspirar é a da juventude - o lugar mais rápido, inseguro e variável da existência humana. O lugar do querer ser. Não vês o contra-senso que isto representa? A violência? A prisão?
(...)
- Utilizavam a arte como uma escada de acesso ao céu. O sucesso era então uma medida celeste. (...) Alguém acrescenta que a arte seria então a expressão máxima do amor, e nisto uma voz potente declara: «Definir-se e arder, isso é amar.»
(...)
(O calor: carícia dos mortos que muito - e quase sempre mal - amámos. Mortos que não soubemos ainda arrefecer, e ardem lentamente à superfície da nossa pele. Ardemos com eles, as palavras somem-se no fogo da pele, papel que torna espessa a tinta do coração. Não há amor imediato: o desejo transtorna a verdade, cai como chuva sobre o sangue, dissolvendo-lhe o tempo de onde vem e o espaço para onde vai. Não se consegue amar completamente senão na memória, Sebastião. As histórias que sonhámos para as pessoas amadas flutuam na neblina dos dias muito quentes, como mentiras leves tocadas pelo peso da verdade. Espuma do mar desfeita ao toque dos dedos. Não te canses a inventar-me no desejo do teu corpo, Sebastião, que o que em mim crês amar não é mais do que a memória das lágrimas, das tuas lágrimas, feitas de uma luz distinta das minhas.)
(...)
O prazer que se pode dar acalma as tempestades humanas; mas o prazer que se recebe e guarda nunca mais nos deixa serenar.
(...)
Peço que me injectem imagens em catadupa, as igrejas e ruas e estátuas em que os que têm o sentido da visão se distraem das visões que os dominam. Mas não posso escolher. A cegueira obriga-me a ver o que é meu.
(...)
A princípio faltavam-me as palavras. Nunca encontrava as palavras certas, por isso experimentava escrever poemas: acreditava que a arquitectura do verso geraria as palavras de que eu precisava, palavras com um mecanismo de relógio tão poderoso que estancasse o tempo. Essas palavras capazes de boiar sobre esse mar de morte que é o tempo, encontrei-as nos teus textos, Vieira - cordas de frases resistindo às intempéries e a si mesmas. Assim desisti dos rituais da poesia, fiz profissão de estudar as palavras do outros -  mas ralhavas-me sempre, António Vieira, puxavas-me as orelhas, não sei se pela minha desistência, se pela minha insistência nas palavras dos outros.
(...)
A coragem é o ponto de exclamação da vaidade, à qual a compaixão faz de vírgula  - os pecados de que desististe por amor a esse Deus que inventaste para não morrer, sublimaste-os a todos na vaidade. A luxúria, a cobiça, até a vontade de poder , a que hoje chamamos sucesso, tudo desfizeste e engoliste no caldeirão frugal da vaidade.
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Digo-te que onde há seres humanos, há prisões.
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Querido amigo; perdoa se te usei como um mapa para encontrar o meu caminho - mas não são isso os amigos?
(...)
- Como se pode falar de alma sem falar de Deus? - pergunta-me Emanuel, enquanto me acaricia e eu canto ao seu ouvido aquela canção em que Caetano define a pele como a parte mais clara da alma. De tudo se pode falar sem falar de Deus. Como de tudo se pode falar enquanto se fala de Deus. Foi o que fez António Vieira.
(...)
Como tu, aprecio esse privilégio supremo do viajante que é o de participar da banalidade quotidiana sem lhe sentir o peso - porque não é sua.
(...)
Sebastião, o horrível desistiu de ser rival do belo, deixou de ser o antibelo. Ambos se fundem, ambos se fundiram sempre - mesmo quando não o queremos ver: são um só ser hermafrodita. Em todo o horrível há um grito pelo belo. No belo o único grito que se ouve - e não é grito, é um lamento em surdina - é pela morte: a morte que o apagará em definitivo, a morte que é a melancolia da sua ausência. O desaparecimento da ideia do belo resulta da sua politização: a beleza em si foi desprezada em favor de uma beleza ética, que muitas vezes se impõe através das imagens contrastantes do horrível - ou mesmo, nos seus momentos mais intensos, de uma beleza épica, que ressuscita sempre nos lugares e momentos de tragédia. Esta beleza épica relaciona-se com o sublime, beleza extrema que, na sua extrema intensidade, se torna dor, vazio, o terrível emudecido. O horrível pelo horrível torna-se infantil, habitual, insignificante, do mesmo modo que o belo pelo belo se torna frustrante.
(...)
Precisa mesmo de se despedir desse Sebastião? Para quê carregar essa nossa curta existência com despedidas? Ninguém sabe despedir-se de nada - não inventamos a eternidade para evitarmos as despedidas?
(...)
Talvez um dia morras, e eu não saiba -  e isso significa apenas que te continuarei amando vivo, e que viverás em mim enquanto eu viver. É essa a imortalidade em que acredito. (...)"
In: A Eternidade e o Desejo,
Inês Pedrosa.

junho 28, 2013

Dentro de Ti ver o Mar.

"Quando se cansava dos livros, ou lhe escorregavam das mãos, incapazes de a entusiasmarem, procurava na Internet frases-corrimão às quais se pudesse agarrar. Corrimãos cada vez mais frágeis; as palavras pareciam velhas, secas, exaustas pela tentativa de mudar o mundo. Possuíam uma capacidade inflamável, talvez por nunca serem capazes de absoluto.
(...)
Quando cantava, Rosa sentia que a voz se separava de si e subia os degraus de uma escada de luz. Era ela quem cantava o fado ou o fado que a cantava? Cantando, deixava de ser rouca e de tropeçar nas palavras. O seu sofrimento tornava-se alto como a noite e tão perfeito que encontrava assim uma forma de consolação.
(...)
Só o amor que Gabriel originara nela, um amor escuro, imóvel, feito da matéria da música e das palavras, a empurrara para o interior do seu talento, libertando-a do absurdo da História e da sua contingência
(...)
Praticamente ninguém se afoitava a ir mais longe do que o seu reflexo no espelho. Talvez tivessem sido assim desde o início dos tempos, superficiais, escapando a mergulhar na vida pelo pavor de antecipar a morte. O homem sensato matará metade de si para poder viver durante mais tempo - era este o fundamento de todas as culturas, o preceito central de todas as religiões.
(...)
A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão. Exige o dom da metamorfose e um alto grau de domínio perante a dor. O artista, como o amante, tem de ser capaz de sair da sua própria pele para se colocar dentro da pele do outro. Esvaziando-se na entrega, ganha também imunidade à dor -  há sempre um lado que contempla, de fora, a obra que dentro de si se está gerando. O artista sente-se um surpreendido Deus. O sopro da divindade, ou dessa iluminação súbita que a ela se assemelha, surge no ser humano por intermitências, frágil chama sobre corpos tocados pela vulnerabilidade do conhecimento antecipado da morte. Pode então suceder que o amante se encontre sufocado na rede de um amor desprezado, sem conseguir extrair desse amor mais do que raiva. Ou sofrimento.  
(...)
Gostou tanto da luz das velas, do silêncio ritual, do dedilhar da guitarra e do vinho como da canção propriamente dita. Gerou-se uma festa instantânea entre Rosa e Farimah, uma daquelas coisas de pele que apenas se referem nas relações de amor mas que constituem o lume inicial das grandes amizades; as paixões platónicas possuem também a sua lascívia.
(...)
Gostava de livros; ultrapassara todas as crises da sua vida com um livro debaixo do braço. Na dúvida, lia. Quando alguém o provocava, abria um livro e ignorava a provocação.
(...)
As palavras ficam sempre aquém da dor.
(...)
Todavia, trazia o pai por todo o lado, como agora a mãe, depois de morta.
- O dom da ubiquidade existe. Há pessoas que têm o poder de materializar a sua imagem num sítio onde não estão.
(...)
Na verdade, afeiçoamos o passado ao molde dos medos do presente; os olhares puros não têm data, sobrevivem ao cinismo contemporâneo como à maldade lisa que supomos ser sua avó. E o desejo é uma questão de cheiro e de pele, coisa animal que transcende a elaboração das transcendências. Farimah e Mandela amaram-se como estranhos e iguais, porque são essas as matérias do amor, relâmpago que tudo abre.
(...)
Rosa procurava o pai porque precisava de saber de onde vinha para saber para onde queria ir. (...)
- Queres a segurança mínima do teu espelho original. Ser completamente livre é impossível, pesa demasiado. Eu percebo-te.
(...)
Olhava-me como se nunca acabasse de me ler. Os livros eram o seu ar, é isso que ele tem de melhor e de pior: o que se passa fora das páginas não interessa, não acontece verdadeiramente, especialmente quando acontece em precipício. As palavras protegem-nos da queda dentro dos precipícios dos livros. Desabam-nos e erguem-nos.
(...)
Antes de entrar no palco da Casa de Portugal, Rosa descalçou-se. Precisava de chão. Estava exausta de procurar a terra no corpo dos outros. Não havia terra para lá das fronteiras da pele; cada pessoa era uma país, quando o conseguia ser. Ela sentia-se terra-de-ninguém, excepto quando as luzes se apagavam e a voz se erguia, no silêncio, cantando tudo o que não conseguia dizer nem chorar.
(...)
Não valia a pena acrescentar que o ódio é ainda um tributo do amor, que o bem e o mal se embaraçam de tal modo que a partir de certo ponto não conseguem destrinçar-se.
(...)
-Tudo dói. Cada palavra traz uma dor.
- E cada silêncio também.
(...)
Isso a que chamamos a nossa vida não existe - é um enxame. O que distingue uma vida da outra é o murmúrio do sonho, a distância a que cada um se coloca dele, o modo de brincar aos abismos.
(...)
As histórias não têm princípio nem fim; agarramo-las como náufragos em busca de calor e devolvem-nos uma vida distinta da que julgávamos viver.
(...)
O que é a paixão senão um movimento de fuga ao tédio da existência e um recurso da vaidade?
(...)
A vantagem de se chegar a um ponto de exaustão é que então só sobra a liberdade."
In: Dentro de Ti ver o Mar,
 Inês Pedrosa.

abril 14, 2013

O Cais das Merendas.

"A primeira grande certeza era essa. Que nos filmes os momentos bons só costumavam durar uns minutos.
(...)
Sebastião Guerreiro queria antes um verdadeiro deserto, areia atrás de areia, rocha a seguir a rocha, e onda e onda. Um espaço puramente desabrido que fosse só ausência. Era o que queria.
(...)
Aliás, era sobretudo quando o dia começava a cair para a noite que aquele aperto de garganta  e traqueia a que também se chamava anguish. Anguish, repeat, mister Sebastian. Aquele aperto se instalava na sua vida, oferecendo a quem calhava vê-lo de perto um ar de estátua pousada no dorso da melancolia. Precisamente o que em tempos terá levado a que lhe chamassem de Cagaça. E isso, porque mesmo e sobretudo aos domingos, o escuro começava a descer pelas seis da tarde com um acinte de urgência, como se fosse eclipse, e ficava raivosamente pelas horas inteiras da noite até ao princípio do amanhecer. Então as memórias afogueavam-me os dedos, e chegavam a humedecer-me a vista de homem feito no pleno da maturação, meus amigos.
(...)
Agora sim, a ausência e o passado faziam compreender o significado mais amplo e mais profundo de tudo o que lhe queria dizer naquele dia. Afinal a memória tinha um rabinho peludo por onde se puxava, e atrás vinham os afectos gritantes, ai de nós, ai de nós. E era tudo.
(...)
Como era possível as desgraças virem a acontecer nos sítios amenos, rodeados de jardins e batidos pelo mar todo praia, onde tudo falava de alegria, doces objectos, odores franceses, malas de viagem?
(...)
A partir daquela cena da janela podia Sebastianito Guerreiro duvidar de tudo, mas tinha uma certeza. Que a solidão era uma dor de rosca que subia do intestino à aurícula do coração, e aí alojada, produzia filhotes que esmagavam a vida. Desamparado, no meio da relva, tinha a impressão de que alguma coisa ainda poderia correr tão mal, que o fizesse passar do jardim à porta, da porta à cozinha, da cozinha à descarga e da descarga à lavoira. Como em certos truques de filme em que as figuras entravam de costas nas viaturas e regressavam de arrecuas aos bancos dos passeios públicos donde antes se tinham erguido."
In: O Cais das Merendas, Lídia Jorge.

março 24, 2013

O Vale da Paixão.

"Sim, tinha chegado a hora do silêncio, o século do silêncio, ele estava a iniciar-se com o ruído da fogueira no descampado, rente ao faval raquítico, nas encostas de arneiro onde assentava o quintal da nossa casa. Onde assenta. O silêncio apontava com o dedo o que iria acontecer, apontava o caminho do futuro da terra. O silêncio dizia que o céu seria assim. Um grande espaço sem nada, onde ninguém teria recordação de nada, onde não haveria ninguém para se lembrar de nada. Nada existiria no céu. Nem desejo, nem dor, nem lembrança de qualquer afeição. O céu seria assim. Os regatos congelados, as nuvens ausentes, assemelhando-se tudo a nada. Seria nada o céu. Que bom o céu ser um espaço aniquilado, o trabalho do homem dispensável, o amor em estado puro, parado. Isso seria o céu. Aqui na terra, ainda não. Ainda nos movíamos como animais, ainda traçávamos estradas, ainda tudo estava em movimento, mais que não fosse para tombarmos e então termos existido antes, depois termos existido muito antes, e por fim, já nem termos existido. Sim, assim seria o céu.
(...)
Mas ela tem quinze anos e é já uma mulher velha. Já imaginou cem mil sóis levantarem-se e outros tantos pousarem, e por isso ela sabe que o novelo está feito, e como uma mulher muito idosa de alma entrevada, ela sabe ficar onde está, sabe que é melhor não entrar. A rapariga velha tem quinze anos no Bilhete de Identidade, mas não é verdade. A rapariga velha é uma mulher muito antiga. Tem um século dentro da cabeça ou talvez mais, tem o início d'Ilíada dentro das pálpebras, tem uma infinidade de mortos aqueus e troianos estendidos na sua língua, tem o fim daquele livro na cabeça e sabe que, há milhares de anos, tudo está amalgamado ao longo de uma praia sob nove camadas de areia. Por isso sabe que não vale a pena dar um passo para mudar, a comédia é a mesma. Correr para diante é ir ao encontro do que ficou para trás.
(...)
Sim, era muito bom, mas a natureza humana repudia a bondade exagerada da Natureza, não confia na estabilidade dela nem acredita que seja seu simulacro, e ela achou que, perante aquela regularidade do azul espampanante do céu e do mar, aquela paz furiosa nascida de uma beleza gritante, era preciso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa que rebentasse aquilo que se erguia na sua frente, harmónico e singular, e lembrou-se da noite em que sentira alguma coisa de semelhante, lembrou-se da noite da chuva. Uma mistura de risco minando a beleza, rasgando a beleza suprema, deflagrando-a, e estupidamente, cretinamente, lembrou-se também do revólver Smith.
(...)
Durante a discussão, o que ela quer dizer é que a sua alma, o nicho onde ela se enrola e esconde, onde ela pernoita, onde ela sabe o que sabe e desconhece o que é para desconhecer, esse sempre fora intocável. (...) Essa a sua herança de preservação, a sua coutada real onde só ela caçava, só ela largava os seus cães e apanhava os seus cervos armados.
(...)
Não se pode salvar. Todas as cartas que vier a escrever serão sobre esses objectos mortos que jazem por terra, que estão pendurados das paredes, que estão na rua à chuva, nos buracos luarentos dos palheiros, nas geringonças dos sarilhos dos poços, nos alcatruzes das noras, presa das mortes dos criados e das meninas que nelas se afogam, das avencas que fazem molhos verdes e se confundem com o dorso dos sapos. Está presa do sapo, da salamandra escura de rabo torto, do álamo, do cipreste, do cemitério branco onde os seus antepassados desfizeram os ossos, os seus nomes presos ao solo, antes de desaparecerem nos confins perpendiculares da terra, onde por acaso também está a pedra do Dr. Dalila. Ela está presa ao coração oculto das pedras. Ela nem vai, só regressa.
(...)
Mas sobre o infinitamente insignificante que a sua memória aos pedaços retinha e a passagem do grande resto que era esse infinito oceano exterior deslizando veloz, erguia-se, vigoroso e concreto, o que ela própria amava. Ela sabia desde há muito, que para si mesma, em certas noites de chuva, a história da humanidade era menos importante do que a história do seu pai, por indigno que fosse pensá-lo, quanto mais dizê-lo, ainda que o fizesse em voz baixa. "
In: O Vale da Paixão, Lídia Jorge.

fevereiro 13, 2013

Quando


Avô,
 ainda hoje sinto o coração andar para trás.
Na curva de um caminho só nosso.
 
 
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
 
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
 
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Sophia.

janeiro 21, 2013

O Vale da Paixão.

"Só dispúnhamos de uma única, aquela noite de chuva, e termos a certeza de que estávamos a correr dentro dela, sem a podermos repetir, impedia-nos de a viver.
 (...)
Os anjos sempre teriam tido saudade da noite em que foram animais, e as bestas sempre hão-de sonhar com o dia fulgurante em que terão caçado a criação inteira, na sua efígie de anjos. Não havia solução para essa dupla saudade.
(...)
Mas ela queria dizer que havia objectos que não desapareciam, que apenas deixavam de ser matéria e de ter peso para passarem a ser lembrança. Passavam a ser fluido imaterial, a entrar e a sair do corpo imaterial da pessoa, a incorporar-se na circulação do sangue e nas cavernas da memória, para aí ficarem alojados no fundo da vida, persistindo ao lado dela, e naquela noite, bastaria aproximar o candeeiro a petróleo do corpo da filha, em camisa, e agasalhada pela colcha, para confirmar como esses objectos se encontravam morando dentro da sua cabeça.
(...)
Na noite da chuva, já ela sabia que a vida não pertencia apenas a quem pertencia, mas também a quem a relatava. E que a vida de Walter não era só dele, era de muitos porque em Valmares todos a imaginavam e relatavam o que imaginavam. Walter também existia nos outros e cada um tinha um pedaço dele, um pedaço de que falavam com gosto, como se Walter inteiro lhes pertencesse.
(...)
E a vergonha, na criação de obediência, era um sentimento imprescindível em todos os tempos, principalmente nos diligentes anos trinta.
(...)
Pertencia ao grupo dos que desconhecem que existe um intervalo entre o acto e o ser, um espaço indomável que ninguém alcança e que transforma cada homem na matéria humana.
(...)
Custódio tinha a coragem própria dos que perderam tudo ainda antes de terem começado as batalhas e amava o irmão, aquele que tinha a parte que a si mesmo faltava. Era como se viesse a caminho a outra metade de si. Por ele, Walter voltaria já.
(...)
Herdei a vivência rumorosa do que sucedeu antes do silêncio. Tornei-me herdeira da imagem dum amor, duma paixão envolvida no seu desencontro, e no entanto alta. Essa imagem atravessa o silêncio de muitos anos, dez, vinte, trinta anos, depois, o carro, que sempre se desloca sobre essa película fina, chega e pára, envolto em silêncio. Um aconchegado fantasma. Maria Ema e Walter vêm dentro dele. Embora eu saiba que nunca viajaram sós. Provam-nos os retratos de Kodak."
(...)
Era culpada, responsável, duma responsabilidade mais funda do que a culpa, porque nascida dum estado criado antes de mim mesma, uma condição herdada que me fizera à imagem e semelhança da própria culpa."
In: "O Vale da Paixão, Lídia Jorge.

janeiro 07, 2013

O Prémio.

 
" - Os meios para transformar a realidade são os terramotos, a iniciativa privada, as instituições internacionais, o Estado, o Cinema e a Literatura. Em Espanha, a iniciativa privada no campo da economia, a política e a sociedade civil constituem três vias miseráveis, inoperantes e mentecaptas. Talvez seja por isso que eu me dedico cada vez mais à literatura, não porque ela modifique a realidade mas porque a substitui por outra, a bel-prazer do autor; daí o financiamento do Prémio Lázaro Conesal. (...)
(...)
Já não servimos para comprovar as regras do jogo mas, pelo contrário, servimos como matéria de catarse nos altares purificadores de um sistema triunfalista que quer ir pelo mundo de cabeça muito alta. É muito divertido que o capitalismo, sem inimigos, descubra que os seus inimigos são os capitalistas. Qualquer coisa de parecido com o que se passou com o comunismo."
In: O Prémio, Manuel Vázquez Montalbán.