junho 22, 2016

Por este Mundo Acima.

"Estou em silêncio há tanto tempo, que não sei como quebrar a barreira entre mim e os outros.
(...)
Sim, a sedução é um jogo, não de verdade ou mentira, mas de ataque e defesa, por esta ordem. E de escândalo. Forçosamente é preciso escandalizar, puxar a realidade das coisas até um limite qualquer e, depois, ver como tudo corre, como é que se aguentam. 
(...)
Uma coisa é verdade, apesar das diferenças, éramos uns dos outros: Jaime na arte, Lourenço na política, escrevendo nos jornais e nos blogues, Sofia salvando o mundo. Um dos sentimentos que me animavam era a união entre os quatro. Pertencíamos uns aos outros. Sem qualquer dogma. Podíamos conversar sobre tudo e disparatar como as crianças. Até a maldade era desculpável. Possuíamos um registo que nos tornava diferentes. Gostava dessa ideia, de sermos o tudo e o nada uns dos outros, cruzando a vida de outras pessoas, mas regressando àquela base de afecto e confiança. Não falávamos sobre a nossa relação; sabíamos que era distinta e que, no meio por onde circulávamos, era tema de conversa. Não nos importávamos.
(...)
Eram dados invulgarmente exóticos para a maioria. Eu gostava de os coleccionar. Dava-me gozo saber coisas estranhas. Era esse tipo de homem: coleccionador de realidades que, em sociedade, me serviam para arrancar uma gargalhada, um apoio espontâneo, uma dose reforçada de superioridade intelectual.
(...)
Interrompia leituras para fazer releituras. Sou um grande adepto das segundas e terceiras leituras. Uma leitura aos vinte anos não é a mesma que aos trinta anos. A culpa é da personagem que é demasiado rica ou do leitor que se transfigura no tempo? A pergunta serviu de mote a tantos jantares. 
(...)
O azul estava mais perto da bondade. 
(...) 
Ser doente é ter um refúgio. 
(...)
A beleza, como a arte, era contemplativa. Perante uma mulher bonita, eu nunca esperei nada. Bastava-me olhar. Quando se dava o acaso de encontrar uma mulher assim e inteligente, rejubilava. A beleza, não sendo essencial, é um grande carinho que a natureza nos proporciona. Eu não era imune a esta comoção. 
(...)
É fundamental deixar de pensar. (...) Desde o início que há um pacto. As palavras podem ser bem-vindas, mas podem, com a mesma força, ser desnecessárias. Uma das características de Pedro, venho a perceber com o tempo, é a economia de gestos e palavras. Nunca mais do que o essencial para concretizar o seu próximo passo enquanto sobrevivente. 
(...)
Tudo é um mistério por ora e confesso-te que não sei nada. Nem de mim, nem dos outros. Se leres isto, um dia, Sofia, quero que saibas que te amo. Sempre te amei. Mais do que qualquer outra. mais do que a ninguém. Não te rias ao ler estas linhas, tem um pouco de compaixão. Controla os teus impulsos, sim? A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma. Sentes isso? Eu sinto. Quando te conheci, percebi-te de imediato. Acho que ficámos transparentes: um a ver a essência do outro. E depois segue-se a vida. 
(...)
Todos os truques que pregámos à vida viraram-se contra nós. Numa ironia qualquer que não entendo, eu - o mais fraco de todos vocês - fiquei no silêncio da casa dos meus pais a pensar nestas coisas. E escrevo, escrevo para não perder a razão. Ou talvez seja o contrário. (...) O escritor escreve para si, dizia eu aos meus autores. É uma mentira, sempre o soube. O escritor escreve como forma de exibicionismo. É único quando se agiganta no palco da escrita e vislumbra chegar à grande interrogação. Todos os bons romances são interrogações, não achas? Sobre o destino, sobre a fatalidade, a sorte e o azar. São a consciência do tempo no momento em que o tempo decorre, como uma veia a pulsar. Os romancistas são exactamente isso: medidores do tempo, das ideias, dos receios e expectativas do seu tempo. São contemporâneos, mesmo que alheados dos outros, porque não têm qualquer escudo protector, são comidos e mastigados pela vida e colocam tudo por escrito.
(...)
Estou tão sozinha que oiço o meu corpo a envelhecer.
(...)
Às vezes, a dor é tão grande, que o coração adormece. O coração deixa de bombear sangue, deixa de ser central no organismo, opta por se calar, passa a ser comandado pela dor. 
(...)
Os livros têm música lá dentro, quanto mais os lemos mais entramos neles, colam-se à nossa pele e fazem da voz o que querem. (...) Os livros têm essa magia, fazem viver as coisas. O leitor percorre as mesma estradas que ele seguiu, encara realidades, redescobre um sentido de humanidade. 
(...)
Não era feliz, pois não?
Não, Pedro, nunca foi feliz. Ela dizia que não possuía essa vocação. Eu acredito que Sofia se limitou a deixar-se arrastar, com uma eficácia tremenda, para o lado mais triste da vida. "
in Por este Mundo Acima, Patrícia Reis. 

abril 12, 2016

Quarto-Escuro.


Querida Avó,

O medo ainda mora a duas ruas de tua casa, cantando dentro de mim como um vento nocturno, apressado, cheio de emoção. É sempre difícil amar quando sabemos que a intensidade de uma ausência pode ser tão avassaladora como a intensidade de um encontro. Nos últimos tempos sinto a infância como uma espécie de assombração doce que me faz chorar pelas coisas simples que tinha como adquiridas: um céu azul, uma casa imensa de calor, uns braços que não acabavam nunca. Choro como um velho que não se habituou ainda à ideia que os sentimentos intensos o podem enlouquecer, como uma pessoa que só sabe amar poucos, mas a fundo perdido, entrando no outro como se cai numa rede sem pensar no acontecer que virá daí a segundos. 
Foram quase quarenta dias em que a vida pesou no peito como se viver apesar de ti fosse o maior insulto que se pode cometer ao amor, a um compromisso sem sucessor. Fui-te ver várias vezes ao hospital e, de cada vez que te encontrava, queria acreditar na força consoladora das palavras, numa qualquer energia que combatesse violentamente a doença e te trouxesse de volta a tua casa, de volta a nós. Voltei a usar as noites como em pequeno: as horas em branco serviram para lançar para o céu gestos de súplica, falei sem parar com as mãos agarradas às do Avô, com os olhos postos em qualquer coisa que te fosse buscar ao fundo de ti mesma, não importa o nome desse ritual. Os olhos ardiam num pânico prisional, era preciso pensar e pedir segurança e ignorar a provocação da morte no horizonte. 
Não sabes isto, mas nesses dias de luta não fui capaz de entrar em tua casa, subir as escadas e simplesmente deixar-me ficar. Cada canto da casa, cada objecto, cada retrato mostrariam a fragilidade da vida, a falta de liberdade que a morte de quem é, junto a nós, dentro de nós, por nós sempre traz. É esse o problema do desespero, podemos encontrar rituais que nos deixem mais leves, mais aliviados, mas nunca há nada que o ultrapasse, que o apague, segue em nós como um sangue, escuro, profundo, gelado. Como as palavras ficam sempre aquém do que nos une, voltei ao silêncio. Passei horas pensando em como a ordem das coisas seguia destruída e em como as pessoas são o esteio da nossa própria existência. Não sei viver sem a voz, o cheiro, o toque dos meus velhos que trago dentro de mim imunes à erosão, resgatados à morte, sofro da doença da fidelidade, de só encontrar um sentido para os dias com a presença de quem amo para lá das fronteiras da racionalidade. O Amor é uma homenagem contra a indiferença. 
Escrevo e na minha cabeça a palavra Avó repete-se a si mesma, sem controlo, dezenas, centenas de vezes, como se eu quisesse desenhar o teu corpo, o azul enorme dos teus olhos, a beleza das tuas mãos na tela do mundo e da vida, um recomeço. De cada vez que olhas para mim, Avó, a eternidade acontece dentro do caminho que fazemos juntos, há quase vinte e nove anos. Peço sempre, quando me deito, a quem amo, que apareça, que se sente no muro dos meus sonhos e que me ajude a acreditar. A continuar. Sou um mar de amores impossíveis, de partidas, de murmúrios e preciso de me manter à tona. Avó, enquanto sofrias no quarto do hospital, pedia para morrer um pouco para te deixar respirar, para te manteres agarrada à bóia que sempre foste para todos nós, toda uma vida. Nunca me importei de viver menos anos feliz do que muitos anos sem ninguém, como uma estátua presa no centro de uma cidade qualquer. Chamo os mortos constantemente, acaricio os retratos a sépia como um vício de querer aproximar o bem e afastar o mal. Nada fica resolvido e fechado com a morte. 
Querida Avó, continuo apaixonado por ti e quero-te sempre junto de mim. Quando o coração abana descompassadamente por ti são as mãos da minha vida a abraçar a tua para que as duas façam sentido e componham o texto que segue tremido. Amei-te mesmo antes de saber falar, escrever ou andar de encontro a ti. Quando te visitava naquele quarto cinzento mentia ao teu corpo para que ele se deixasse seduzir pela vida uma e outra vez, para que o teu coração pudesse viver fora dos muros de pedra onde o Avô já está há dezasseis anos. A mentira é uma ferramenta do amor, irmã maior da esperança, tão necessária como o ar para permanecer. É preciso que nos percamos para nos encontrarmos e, por entre corredores, gemidos, rostos apavorados, tentei sempre que o milagre da imortalidade acontecesse mais um dia, mais uma vez. 
O medo ainda mora dentro de mim. Sem atenuantes. E ando meio desalentado. Mas, sem saberes, subi as escadas de tua casa quando já dormias no teu quarto. Sentei-me e chorei. Deixei a minha cabeça descer até ao coração e desaguar nele. Nesse momento soube que entre mim e ti ainda há o prazer da imortalidade feito de palavras, sons, cheiros, pedaços de gente e de lugares mágicos. Soube, enquanto dormias, que ambos buscamos a sobrevivência da melhor forma que sabemos e que nos agarramos ao mesmo antídoto que é a memória da existência do(s) outro(s). É como se no bolso de cada um de nós estivesse um mesmo pedaço de papel dobrado, velhinho, com a morada que só se lerá, um dia, quando abandonarmos a máquina da multidão e voarmos, alto, para lá dos olhos tristes que ainda vejo no espelho. Usei as palavras para te reerguer e usei o silêncio para te acompanhar nessas outras palavras negras que ficaram, felizmente, fora das margens desta história e que, por isso, não contam nada. Avó, para onde fores, eu vou. Sempre. Sou uma pessoa que só sabe amar poucos, mas a fundo perdido, entrando no outro como se cai numa rede sem pensar no acontecer que virá daí a segundos, sabes? É a paisagem que mais aprecio, o horizonte onde cabemos todos juntos como uma família deve permanecer. 
Amo-te mais, hoje, Avó, e sei que sabes disso, da força de um amor que sobrevive, mesmo num quarto(escuro) de hospital. Somos visceralmente um do outro e encontramos na companhia um do outro qualquer coisa sem nome, sem limites, sem paredes de pedra. Para os dias negros que venham temos o papel no bolso e uma morada para onde seguir. Juntos. Num silêncio ritual. 

setembro 24, 2014

Falo de Ti.

Avô,

O dia escorre para o seu fim como um caminho há muito conhecido e desde sempre percorrido, em silêncio. O céu incendeia-se numa morte dramática, num fogo que desagua na noite onde os corpos se despem, se enfrentam, se escutam. É nestes momentos, no fim das coisas, no fim da linha branca da realidade que procuro o som para aquilo que hás-de ser, não estando aqui, do meu lado. Desde que foste que a memória joga com o coração uma espécie de sequestro do porvir, um contágio das promessas pelas palavras que escorrem dentro da saudade com que os meus olhos inundam as horas que ficaram depois de ti.
Desde muito pequenos, nos dias quentes de Verão na Meia Praia, esse deserto amplo onde a liberdade sopra até ao fundo de cada um de nós, eu e o meu irmão caminhamos juntos, unidos por gestos, palavras, dúvidas e abraços que o tempo não dissolve à procura do que não tem nome mas que dói e pesa, uma espécie de impossibilidade que se pressente mas não se aceita, uma paisagem que ainda não se vê mas fura os olhos do amor como uma noite sem estrelas. Lembro com saudade essa vida onde o despontar da melancolia era ainda suportável, onde as perdas se conjugavam com um tempo longínquo, do outro lado do mar, do outro lado da infância. Marcávamos o chão com passos que valiam como questões, ambos sabíamos que era a morte dos nossos que nos desenhava a pressa de amarmos, dizermos, corrermos para o colo do Avós, da Gó, dessas pessoas que cultivaram os baldios do nosso coração como anjos de uma carne quente, forte, incondicionalmente cosida com a nossa para todos os mistérios do caminho.
Meu Avô, a verdade é que, hoje, depois de não ter consigo evitar a tua partida, quando, à noite, pedia a um Deus que não conhecia bem, que descontasse na minha estrada os quilómetros que sem ti seriam um excesso de realidade a pender de um corpo dorido, exausto, ainda me acompanhas em tudo e em todas as horas de uma estrada mais sinuosa, outonal, espinhosa. Não sei viver com o teu desaparecimento e a devastação do passado não acontece tão imediatamente porque na ardósia da escola eu escrevo o teu nome, o nome dos Bisavós, a tua idade, datas em que te sabia seres do tempo de cá, vasculho a casa muda, abro armários, remexo nos cantos de todas as gavetas da memória para preservar o perfume do teu abraço, a humanidade da tua acção, os traços da tua velhice que sempre me comoveram.
Quando converso com a Avó, quando enlaçamos as mãos e os sentimentos acusam uma filiação evidente, percebo com ela que a geometria da vida breve nada tem a ver com a vastidão que o amor pode pintar numa janela, a casa de pedra onde tu também já foste criança, infinita como a esperança que peço como remédio para este quadro vazio que se pendura na mesma parede onde ontem tinha sete, oito, nove anos e as composições falavam todas de umas escadas do tamanho da imaginação, onde só se somava e multiplicava os contornos do habitual, um amor imune aos medos que se tornam em abismos profundos. Chego sempre a ti, é de ti que parto quando a luz que nos sonhos me mostras coincide com a manhã lá fora, invisível a tua presença nos meus passos, sentida como um batimento de dois corações que se tornam um por absoluta necessidade um do outro. Sei que a Avó sente o lume dos meus olhos afogados nos retratos, nos instantes que roubámos à morte e que, em silêncio, choramos ainda hoje o não saber roer amarras e deixar-te partir, dissipando-te no verde dos teus campos, somos ambos teimosos e queremos ser o asilo que acolhe a tua morte, os teus quase noventa e cinco anos de vida, queremos ser o teu coração sepultado, o lugar onde descansas, o escuro onde as flores não precisem de chorar por nós.
Nasci amando o que não conheci senão pelo que sinto desse mundo anterior a mim e que em mim se revela cada vez mais, num espelho de ressonâncias e de ressurgimento. Sou o que és em mim e o que não podes ser mais, como um dever de expressão que se cumpre por um aluno sentimentalmente motivado, apaixonado pelas gentes de vento e mar que reencontro no areal das praias que sempre fizeram parte do meu caminho de procura. Ouço o mar, vejo marcas de passos à minha frente, coloco os meus pés na pele molhada da areia que cedeu porque tu passaste. Tu, Avô, tu, irmão, um de vocês disse-me qual era o caminho onde todos nos encontrámos, um postal de uma morada feliz. Hoje encontro-me sozinho nos contornos de um corpo onde mora muita gente feita da mesma espuma que a fuga do mar sempre desenha na face do mundo.
 Avô, nada do que é teu te vou devolver nesta vida, não vou ceder ao lugar onde os mortos caem por terra, encarcerados num esquecimento imerecido. O teu lugar é no meu coração, vivo, misterioso, curioso e não num soalho triste de solidão campal. Peço-te, quando falo contigo, que não te esqueças de nós, que esperes por nós na esquina da tua rua, olhando a janela do meu quarto, na madrugada em que te sinto por perto, num envelhecimento ao contrário, num chamamento que um dia se cumprirá. Rezo todos os dias para que a morte me leve, ouvindo fado, e que a letra desse destino se acerte com o que te calhou. Quero muito voltar a ver-te, aí, ali, onde se escondem as cinco da tarde de uma infância em que me pagavas pela mão e me bordavas um sorriso no rosto, uns olhos iguais aos teus para eu saber sempre ver-te e ver-me quando me perco no vento do Verão que sempre me confundiu. Procuro-te em cada frase, em cada livro que abro, em cada esquina onde julgo poder decifrar a linguagem que a morte escreveu na minha vida, o trabalho durará motivado por um amor definitivo, impositivo, convoco-te para as ruas do meu destino fazendo de tudo para que um dia, quando eu morrer, me venhas com o teu carinho dizer que a nossa família não se perdeu no labirinto do esquecimento, que os meus mortos olham por mim e têm saudades, um nome onde cabe tudo o que corre como um rio, espelho de um mistério maior.
Espera por mim. O mundo onde vivemos é redondo e eu caminho sempre, seguindo os passos que ao ouvido me dizes serem o destino dos que nas sombras pesadas pregadas no chão descobrem ainda o espelho de um corpo que dança no sangue do amor.   

outubro 08, 2013

Onde a Noite se Acaba.

"Gostava de Londres, gostava da neblina. Fora duma e doutra, ter-se-ia sentido abandonado e nu como um primitivo, grotesco e risível. A neblina (assim, andando, reflectia o professor) esbate e amacia os contornos das coisas e dos seres, lubrifica os convívios, torna mais íntima e segura a personalidade, estabelece entre os homens uma translúcida barreira, uma distância, um véu, que os faz mais livres, mais senhores de si. É a condição indispensável da privacy. (...)
O homem londrino (meditava sempre o erudito, num crescendo de pensamento criador) vive numa atmosfera quase imaterial, propício ao culto fecundo do Eu, à meditação, à intimidade subjectiva. É-nos preciso ir ao clube, ao teatro, ao pub, ao restaurante, para reatar os laços do convívio material, para refazer todos os dias a noção vertiginosa da existência dos outros... Sim, precisamos do whist, do meeting, da igreja, do conforto, do golf, e até mesmo do whiskey, para sabermos que existimos socialmente, que fazemos parte dum mundo de indivíduos, de homens loiros, fleumáticos, precisos! Disso e do Times. Ah, o Times! (...)
«A civilização - costumava ele dizer aos seus alunos impassíveis - é a filha dilecta dos climas frios, e da Inglaterra em particular. As altas temperaturas e o ar seco enervam, ou excitam demasiado, fazem murchar as flores da criação e da cultura...»
Preparava havia bons vinte anos um minucioso ensaio sobre «As relações da temperatura e do grau higrométrico do ar com a marcha da Civilização» (ou coisa assim), mas faltavam-lhe, como é de ver, certos dados essenciais sobre as condições atmosféricas do Egipto sob a vigésima segunda dinastia, e outros momentos de importância histórica igualmente relativa, se os compararmos ao esplendor da era vitoriana."
In: Onde a Noite se Acaba, José Rodrigues Miguéis

julho 07, 2013

A Eternidade e o Desejo.

"O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor -  por isso permanecem quando as cores desmaiam.
(...)
A voz de um homem desbravando a fé nas palavras, fazendo de cada palavra uma catapulta, um forno, um berço, um gesto de reconstrução do mundo. Um céu partido ao meio no meio da tarde, um céu despenhado, pedra a pedra, da voz deste homem.
(...)
É verdade que o amor cega, paralisa, entorpece - mas apenas para tudo o que não é o amor. E tudo o que não é o amor é o mal do mundo. Não vale nada.
(...)
Vieira não precisava de nada nem de ninguém. No fundo, acho que lhe bastava a consciência de que tinha Deus dentro de si -  ou a eternidade, ou o conhecimento, como preferires.
(...)
Mas eu vejo tão pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebastião. A eternidade que somos conduzidos a aspirar é a da juventude - o lugar mais rápido, inseguro e variável da existência humana. O lugar do querer ser. Não vês o contra-senso que isto representa? A violência? A prisão?
(...)
- Utilizavam a arte como uma escada de acesso ao céu. O sucesso era então uma medida celeste. (...) Alguém acrescenta que a arte seria então a expressão máxima do amor, e nisto uma voz potente declara: «Definir-se e arder, isso é amar.»
(...)
(O calor: carícia dos mortos que muito - e quase sempre mal - amámos. Mortos que não soubemos ainda arrefecer, e ardem lentamente à superfície da nossa pele. Ardemos com eles, as palavras somem-se no fogo da pele, papel que torna espessa a tinta do coração. Não há amor imediato: o desejo transtorna a verdade, cai como chuva sobre o sangue, dissolvendo-lhe o tempo de onde vem e o espaço para onde vai. Não se consegue amar completamente senão na memória, Sebastião. As histórias que sonhámos para as pessoas amadas flutuam na neblina dos dias muito quentes, como mentiras leves tocadas pelo peso da verdade. Espuma do mar desfeita ao toque dos dedos. Não te canses a inventar-me no desejo do teu corpo, Sebastião, que o que em mim crês amar não é mais do que a memória das lágrimas, das tuas lágrimas, feitas de uma luz distinta das minhas.)
(...)
O prazer que se pode dar acalma as tempestades humanas; mas o prazer que se recebe e guarda nunca mais nos deixa serenar.
(...)
Peço que me injectem imagens em catadupa, as igrejas e ruas e estátuas em que os que têm o sentido da visão se distraem das visões que os dominam. Mas não posso escolher. A cegueira obriga-me a ver o que é meu.
(...)
A princípio faltavam-me as palavras. Nunca encontrava as palavras certas, por isso experimentava escrever poemas: acreditava que a arquitectura do verso geraria as palavras de que eu precisava, palavras com um mecanismo de relógio tão poderoso que estancasse o tempo. Essas palavras capazes de boiar sobre esse mar de morte que é o tempo, encontrei-as nos teus textos, Vieira - cordas de frases resistindo às intempéries e a si mesmas. Assim desisti dos rituais da poesia, fiz profissão de estudar as palavras do outros -  mas ralhavas-me sempre, António Vieira, puxavas-me as orelhas, não sei se pela minha desistência, se pela minha insistência nas palavras dos outros.
(...)
A coragem é o ponto de exclamação da vaidade, à qual a compaixão faz de vírgula  - os pecados de que desististe por amor a esse Deus que inventaste para não morrer, sublimaste-os a todos na vaidade. A luxúria, a cobiça, até a vontade de poder , a que hoje chamamos sucesso, tudo desfizeste e engoliste no caldeirão frugal da vaidade.
(...)
Digo-te que onde há seres humanos, há prisões.
(...)
Querido amigo; perdoa se te usei como um mapa para encontrar o meu caminho - mas não são isso os amigos?
(...)
- Como se pode falar de alma sem falar de Deus? - pergunta-me Emanuel, enquanto me acaricia e eu canto ao seu ouvido aquela canção em que Caetano define a pele como a parte mais clara da alma. De tudo se pode falar sem falar de Deus. Como de tudo se pode falar enquanto se fala de Deus. Foi o que fez António Vieira.
(...)
Como tu, aprecio esse privilégio supremo do viajante que é o de participar da banalidade quotidiana sem lhe sentir o peso - porque não é sua.
(...)
Sebastião, o horrível desistiu de ser rival do belo, deixou de ser o antibelo. Ambos se fundem, ambos se fundiram sempre - mesmo quando não o queremos ver: são um só ser hermafrodita. Em todo o horrível há um grito pelo belo. No belo o único grito que se ouve - e não é grito, é um lamento em surdina - é pela morte: a morte que o apagará em definitivo, a morte que é a melancolia da sua ausência. O desaparecimento da ideia do belo resulta da sua politização: a beleza em si foi desprezada em favor de uma beleza ética, que muitas vezes se impõe através das imagens contrastantes do horrível - ou mesmo, nos seus momentos mais intensos, de uma beleza épica, que ressuscita sempre nos lugares e momentos de tragédia. Esta beleza épica relaciona-se com o sublime, beleza extrema que, na sua extrema intensidade, se torna dor, vazio, o terrível emudecido. O horrível pelo horrível torna-se infantil, habitual, insignificante, do mesmo modo que o belo pelo belo se torna frustrante.
(...)
Precisa mesmo de se despedir desse Sebastião? Para quê carregar essa nossa curta existência com despedidas? Ninguém sabe despedir-se de nada - não inventamos a eternidade para evitarmos as despedidas?
(...)
Talvez um dia morras, e eu não saiba -  e isso significa apenas que te continuarei amando vivo, e que viverás em mim enquanto eu viver. É essa a imortalidade em que acredito. (...)"
In: A Eternidade e o Desejo,
Inês Pedrosa.

junho 28, 2013

Dentro de Ti ver o Mar.

"Quando se cansava dos livros, ou lhe escorregavam das mãos, incapazes de a entusiasmarem, procurava na Internet frases-corrimão às quais se pudesse agarrar. Corrimãos cada vez mais frágeis; as palavras pareciam velhas, secas, exaustas pela tentativa de mudar o mundo. Possuíam uma capacidade inflamável, talvez por nunca serem capazes de absoluto.
(...)
Quando cantava, Rosa sentia que a voz se separava de si e subia os degraus de uma escada de luz. Era ela quem cantava o fado ou o fado que a cantava? Cantando, deixava de ser rouca e de tropeçar nas palavras. O seu sofrimento tornava-se alto como a noite e tão perfeito que encontrava assim uma forma de consolação.
(...)
Só o amor que Gabriel originara nela, um amor escuro, imóvel, feito da matéria da música e das palavras, a empurrara para o interior do seu talento, libertando-a do absurdo da História e da sua contingência
(...)
Praticamente ninguém se afoitava a ir mais longe do que o seu reflexo no espelho. Talvez tivessem sido assim desde o início dos tempos, superficiais, escapando a mergulhar na vida pelo pavor de antecipar a morte. O homem sensato matará metade de si para poder viver durante mais tempo - era este o fundamento de todas as culturas, o preceito central de todas as religiões.
(...)
A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão. Exige o dom da metamorfose e um alto grau de domínio perante a dor. O artista, como o amante, tem de ser capaz de sair da sua própria pele para se colocar dentro da pele do outro. Esvaziando-se na entrega, ganha também imunidade à dor -  há sempre um lado que contempla, de fora, a obra que dentro de si se está gerando. O artista sente-se um surpreendido Deus. O sopro da divindade, ou dessa iluminação súbita que a ela se assemelha, surge no ser humano por intermitências, frágil chama sobre corpos tocados pela vulnerabilidade do conhecimento antecipado da morte. Pode então suceder que o amante se encontre sufocado na rede de um amor desprezado, sem conseguir extrair desse amor mais do que raiva. Ou sofrimento.  
(...)
Gostou tanto da luz das velas, do silêncio ritual, do dedilhar da guitarra e do vinho como da canção propriamente dita. Gerou-se uma festa instantânea entre Rosa e Farimah, uma daquelas coisas de pele que apenas se referem nas relações de amor mas que constituem o lume inicial das grandes amizades; as paixões platónicas possuem também a sua lascívia.
(...)
Gostava de livros; ultrapassara todas as crises da sua vida com um livro debaixo do braço. Na dúvida, lia. Quando alguém o provocava, abria um livro e ignorava a provocação.
(...)
As palavras ficam sempre aquém da dor.
(...)
Todavia, trazia o pai por todo o lado, como agora a mãe, depois de morta.
- O dom da ubiquidade existe. Há pessoas que têm o poder de materializar a sua imagem num sítio onde não estão.
(...)
Na verdade, afeiçoamos o passado ao molde dos medos do presente; os olhares puros não têm data, sobrevivem ao cinismo contemporâneo como à maldade lisa que supomos ser sua avó. E o desejo é uma questão de cheiro e de pele, coisa animal que transcende a elaboração das transcendências. Farimah e Mandela amaram-se como estranhos e iguais, porque são essas as matérias do amor, relâmpago que tudo abre.
(...)
Rosa procurava o pai porque precisava de saber de onde vinha para saber para onde queria ir. (...)
- Queres a segurança mínima do teu espelho original. Ser completamente livre é impossível, pesa demasiado. Eu percebo-te.
(...)
Olhava-me como se nunca acabasse de me ler. Os livros eram o seu ar, é isso que ele tem de melhor e de pior: o que se passa fora das páginas não interessa, não acontece verdadeiramente, especialmente quando acontece em precipício. As palavras protegem-nos da queda dentro dos precipícios dos livros. Desabam-nos e erguem-nos.
(...)
Antes de entrar no palco da Casa de Portugal, Rosa descalçou-se. Precisava de chão. Estava exausta de procurar a terra no corpo dos outros. Não havia terra para lá das fronteiras da pele; cada pessoa era uma país, quando o conseguia ser. Ela sentia-se terra-de-ninguém, excepto quando as luzes se apagavam e a voz se erguia, no silêncio, cantando tudo o que não conseguia dizer nem chorar.
(...)
Não valia a pena acrescentar que o ódio é ainda um tributo do amor, que o bem e o mal se embaraçam de tal modo que a partir de certo ponto não conseguem destrinçar-se.
(...)
-Tudo dói. Cada palavra traz uma dor.
- E cada silêncio também.
(...)
Isso a que chamamos a nossa vida não existe - é um enxame. O que distingue uma vida da outra é o murmúrio do sonho, a distância a que cada um se coloca dele, o modo de brincar aos abismos.
(...)
As histórias não têm princípio nem fim; agarramo-las como náufragos em busca de calor e devolvem-nos uma vida distinta da que julgávamos viver.
(...)
O que é a paixão senão um movimento de fuga ao tédio da existência e um recurso da vaidade?
(...)
A vantagem de se chegar a um ponto de exaustão é que então só sobra a liberdade."
In: Dentro de Ti ver o Mar,
 Inês Pedrosa.

abril 14, 2013

O Cais das Merendas.

"A primeira grande certeza era essa. Que nos filmes os momentos bons só costumavam durar uns minutos.
(...)
Sebastião Guerreiro queria antes um verdadeiro deserto, areia atrás de areia, rocha a seguir a rocha, e onda e onda. Um espaço puramente desabrido que fosse só ausência. Era o que queria.
(...)
Aliás, era sobretudo quando o dia começava a cair para a noite que aquele aperto de garganta  e traqueia a que também se chamava anguish. Anguish, repeat, mister Sebastian. Aquele aperto se instalava na sua vida, oferecendo a quem calhava vê-lo de perto um ar de estátua pousada no dorso da melancolia. Precisamente o que em tempos terá levado a que lhe chamassem de Cagaça. E isso, porque mesmo e sobretudo aos domingos, o escuro começava a descer pelas seis da tarde com um acinte de urgência, como se fosse eclipse, e ficava raivosamente pelas horas inteiras da noite até ao princípio do amanhecer. Então as memórias afogueavam-me os dedos, e chegavam a humedecer-me a vista de homem feito no pleno da maturação, meus amigos.
(...)
Agora sim, a ausência e o passado faziam compreender o significado mais amplo e mais profundo de tudo o que lhe queria dizer naquele dia. Afinal a memória tinha um rabinho peludo por onde se puxava, e atrás vinham os afectos gritantes, ai de nós, ai de nós. E era tudo.
(...)
Como era possível as desgraças virem a acontecer nos sítios amenos, rodeados de jardins e batidos pelo mar todo praia, onde tudo falava de alegria, doces objectos, odores franceses, malas de viagem?
(...)
A partir daquela cena da janela podia Sebastianito Guerreiro duvidar de tudo, mas tinha uma certeza. Que a solidão era uma dor de rosca que subia do intestino à aurícula do coração, e aí alojada, produzia filhotes que esmagavam a vida. Desamparado, no meio da relva, tinha a impressão de que alguma coisa ainda poderia correr tão mal, que o fizesse passar do jardim à porta, da porta à cozinha, da cozinha à descarga e da descarga à lavoira. Como em certos truques de filme em que as figuras entravam de costas nas viaturas e regressavam de arrecuas aos bancos dos passeios públicos donde antes se tinham erguido."
In: O Cais das Merendas, Lídia Jorge.